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domingo, 25 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 15 – Doutor Apolo e a Estética da Assimetria

Embora Maria Fulam tenha oferecido ao marido uma tarde espetacular de sexo, parte do grande acontecimento da vida dele, ela própria não experimentou em sua vida um momento memorável. Há dessas pessoas cuja existência passa em branco, sem que se superem ou que saboreiem um momento ímpar, seja de epifania, seja de libertação. Maria Fulam era espírita e deixou tal desfrute para a próxima encarnação.

Não subestimemos, contudo, sua passagem por este mundo: além de oferecer ao marido uma boa ideia, que rendeu a ele muitos votos, e um orgasmo especial, que o fez sentir-se mais homem do que nunca, Maria Fulam também contribuiu sensivelmente para que seu cirurgião plástico, o Doutor Apolo, especialista em beleza facial, vivesse um episódio revelador.

Apolo era neto de um grande escritor de livros de auto-ajuda, Fabiano – especialista em dicas para aprovação em concursos públicos. No Brasil do futuro, as editoras gozavam de isenções fiscais polpudas, desde que dessem espaço a escritores que fomentassem a livre iniciativa e a cultura no Brasil: era uma forma de, a um só tempo, erradicar o analfabetismo e estimular o espírito criativo de nosso povo. Fabiano ganhou milhões com incentivos como esse, e sua filha Vênus, mãe de Apolo, herói da nossa história, pôde desfrutar de uma vida de pompa e ócio, frequentando as clínicas de estética feminina de São Paulo, do Rio de Janeiro, até de Paris e Nova Iorque. Não contemos aqui que o pai de Apolo batalhou largamente na justiça pela guarda do filho, nem lembremos que a perdeu devido às influências políticas que o avô angariara quando ingressou na cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras: todos esses são fatos associados a um Brasil do passado, que já está sepultado no período em que se passa esta história.

Apolo cresceu em meio a cabeleireiros, cirurgiões plásticos, massagistas, personal-trainers, esteticistas, manicures, pedicures, instrutores de academia, dermatologistas, maquiadores, depiladores, todos os profissionais cuja única ocupação era embelezar sua mãe e sua avó, Angélica – esta, a mulher que o criou de fato, porque a mãe era ocupada demais.

Incentivado pela avó, inspirado na carreira do avô e nos afazeres diários da mãe, Apolo tornou-se médico especialista em cirurgia plástica e, em poucos anos, teve seu consultório procurado por artistas e políticos, modelos e intelectuais, todos abastados – Apolo dispensava os acidentados e os pobres, que lhe causavam, respectivamente, horror e desinteresse; bastava-lhe o nicho de mercado da estética dos milionários, porque era necessário oferecer beleza a quem não tem, um modo todo seu de fazer valer, na Terra, a justiça que Deus não teve a coragem de praticar no céu. Apolo teve um momento de glória quando recebeu do prefeito, Adhemar Fulam, a chave da cidade, porque o cirurgião embelezava o povo de São Paulo e uma população bela, argumentava o político, era sinônimo de qualidade de vida, da mesma forma que a boa educação, conforme foi possível observar num projeto bem-sucedido do mesmo prefeito, quando ainda era vereador.

Assoberbado pelo sucesso, meio embriagado com o vinho francês que bebera no almoço, Doutor Apolo injetou uma dose excessiva de botox no rosto de Maria Fulam – esposa daquele que o premiara e cliente assídua da clínica. Apavorado com o que via – uma sobrancelha direita saliente, que contrastava com a maçã direita do rosto, cujo inchaço a deixava mais avermelhada do que a outra –, lembrou-se dos textos do avô e argumentou com a cliente que a simetria dos dois lados da face era sinônimo de critérios superados de beleza. Maria Fulam impressionou-se por ser a cobaia do Michelângelo de seu século; a fim de fazer moda, foi a todas as festas da alta sociedade naquela semana – e sorriu torto quando viu sua foto estampada nas páginas das “Frases da Semana”, na revista semanal de variedades mais vendida do país: “Simetria é coisa do passado; o descompasso é a Renascença do nosso século”.

Para Doutor Apolo, a foto e a frase trouxeram muitas clientes; sua tese de doutorado, intitulada A Estética da Assimetria, rendeu-lhe uma vaga na cadeira 22 da Academia Brasileira de Letras, ao lado do avô.

2 comentários :

José Luiz disse...

Gostei do toque surrealista (assimetria) e lembrei-me do cineasta espanhol, Luis Buñuel. Até breve.

HBMS disse...

ahehaehua

ótimo texto \o/