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domingo, 25 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 10 - A herança de Aureliano

Quando Tréssio teve sua epifania, Aureliano, seu filho, era ainda um bebê. Tréssio abraçou forte aquela criança gorda, saudável, que quando nasceu mamou mais de duas horas sem parar, e que queria sempre tudo para si, todos os brinquedos, todo o quarto, todos os carinhos. O pai já intuía no filho um certo sentimento de propriedade, de fome de bens materiais, que afligia e impressionava. Naquela mesma noite, apavorado pela idéia de que poderia morrer cedo sem ensinar nada ao filho mais velho, Tréssio escreveu-lhe uma longa carta, explicando-lhe o que aprendera com o estalo da motocicleta: que mais valia a pena estar vivo e amar os outros; que havia tempo para tudo, até para a morte; que os carros, as motos, o dinheiro, tudo isso eram só coisas, mais valia dar atenção às pessoas e aos sentimentos.


Mal sabia Tréssio que sua aprendizagem já se ampliara, basta ao leitor, para comprová-lo, que leia o conto anterior e compare as lições que esse passageiro protagonista extraiu do barulho da motocicleta com estas que acaba de escrever. O leitor há de considerar, também, que é possível que o narrador invente estas histórias semanalmente e as faça mudar de moral ao sabor do vento e dos seus humores. Fato é que o que lá vai escrito não é o que ficou registrado acima, o que nos leva à conclusão de que Tréssio angariou ainda mais sabedoria de uma simples explosão de escapamento.


Ao longo da vida de Aureliano, este se interessaria, entretanto, mais por uma moto do que pelas lições do pai, que lhe escreveu uma carta, mas que a esqueceu dentro do livro que lia naquela semana, a Carta ao Pai, de Franz Kafka. Aureliano cresceu, adolesceu, engordou ainda mais, ficou adulto, adoeceu de trabalho e de interesse e torceu secretamente para que o pai morresse, para que lhe pudesse por as mãos no carro antigo, que o progenitor jamais vendera ou emprestara, carro que dirigia num dia em que – contava sua mãe – o marido Tréssio voltara atormentado da rua, escrevera um texto que ninguém nunca havia lido e ficara mais carinhoso do que nunca, com ela e com os filhos.


Aureliano não dava atenção a essas histórias de família. Depois da morte do pai, apossou-se das chaves do velho carro e fez uma limpeza na biblioteca paterna, na expectativa de ganhar algum troco com aquela papelada, até deparar-se, por acaso, com o livro Carta ao Pai, de Franz Kafka, dentro do qual encontrou uma carta dirigida a ele mesmo, Aureliano, que chorou durante horas, porque descobriu que Tréssio lhe deixara mais que um carro, parte da casa e muitos livros velhos.

Um comentário :

Bruno Torelli disse...

Excelentes textos! Começo a visualizar agora um entrelaçamento de suas produções espalhadas pela web.
Nestas histórias, em particular, apreendi meu interesse e curiosidade.