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domingo, 25 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 12 - A leitura de Onírio

O leitor virtual terá percebido o quão solta é a narrativa num blog da internet: as personagens amarram-se livremente, uma levando à outra; saltam-se os anos indiscriminada e irresponsavelmente, não há nada que possa ordenar o discurso, que corre para todos os lados, qual um ícone de mouse, seja ele uma seta ou uma mão. A existência efêmera de João Celerino levou-nos ao vômito de Onejar, apenas porque eles estudariam na mesma escola, não tivesse o primeiro falecido tragicamente – e os dois sequer se conheceram. É agora uma carta que nos leva à vida de Onírio, outro professor destes contos, porque é a escola o único universo conhecido pelo narrador; Onírio, ao contrário da professora de História de Aparecido, valorizava as palavras que Tréssio escrevera mais de vinte anos antes – a narrativa ganha, assim, subitamente, ares de ficção científica, porque investiga o futuro das salas de aula do Brasil.


Onírio é um privilegiado: trabalha numa escola particular, com todos os recursos tecnológicos que a mente humana pode conceber – lousa cujo conteúdo é transmitido por meio de um sistema wireless para os laptops dos alunos; sala de aula virtual em que os jovens podem experimentar a sensação de estar numa trincheira da Primeira Guerra Mundial, nos porões da Ditadura Militar ou nas Torres Gêmeas no dia 11 de setembro; acervo virtual com todo o material didático, que pode ser acessado de casa; e muito mais, basta fazer uma visita e tomar um café com os coordenadores que estão sempre preparados para atender você e seu filho, prepará-lo para as expectativas de mercado e fazer dele um case de sucesso, tudo isso com a qualidade e o atendimento personalizado que você já conhece.


Onírio é professor de geometria, trigonometria e, principalmente, matemática financeira, disciplina que se tornou obrigatória no Ensino Médio, mas acredita que o conhecimento humano é sistêmico. Por isso, secretamente, em suas aulas, pensa em frases de grandes pensadores, que poderiam sensibilizar os alunos – mas proferi-las render-lhe-ia a pecha de sonhador, além de colocar-lhe o emprego em risco. Num domingo, Onírio descobriu numa barraquinha da Feira do Masp, por simbólicos dez reais – considere aí o leitor a inflação de cá para lá, e considere também que ela segue rigorosamente controlada pelo COPOM até o ano em que estamos – a carta de Tréssio a seu filho. Onírio leu-a, emocionou-se, comprou- a e leu-a em voz alta em sala de aula, o grande momento de sua vida.


– E qual a relação disso com o mercado financeiro? Perguntou o aluno mais inteligente da sala.


Onírio não soube responder: hesitou longamente na frente da classe, riu nervoso e disse a verdade: “nada”. Na semana seguinte, foi demitido por justa causa, afinal estava fugindo aos conteúdos previstos no currículo escolar.

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