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domingo, 25 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 14 - O discurso inflamado de Adhemar

Vinícius jamais conheceu os efeitos de seu temor que se transmutou em coragem. Havia entre os pais de alunos aqueles que se enterneciam da saudação do segurança. Maria Fulam era dessa estirpe de mulheres que, apesar de abastadas, não se deixam levar pela soberba do poder econômico. Tocada pelo sorriso diário do serviçal de seu filho, Maria Fulam exigiu do marido, Adhemar Fulam, respeitado vereador da cidade de São Paulo, que apresentasse um projeto de lei em que fosse exigida a cortesia “bom dia” no atendimento público ao munícipe.


Adhemar, ao ouvir a exigência da esposa, ficou atarantado. Como justificar esse capricho na redação do texto? Como apresentá-lo à imprensa? Maria contra-argumentou solenemente, afirmando que a boa educação era condição necessária para a qualidade de vida; que não havia motivos para contrariá-la; que o segurança da escola do filho a presenteava diariamente com aquele cumprimento singelo, capaz de dar àquela senhora já tão marcada pela vida uma perspectiva otimista de existência; e muitos outros raciocínios apresentou Maria ao esposo, alguns deles de agudeza e argúcia tal – não diremos ardilosidade, que não cabe tal palavra a mulher desse quilate – que o marido acedeu, imaginando algum meio de reverter a situação.


Acontece que a solidariedade assola a todos – sobretudo no Brasil do futuro. No discurso que fez uma semana depois, na Câmara dos Vereadores, Adhemar expôs, com lágrimas nos olhos, o raciocínio que explicava que a boa educação era condição necessária para a qualidade de vida; que cumprimentos singelos podem oferecer a quem tem pouco ou nada uma perspectiva de existência; que o munícipe já estava farto do atendimento público com livro de ponto, expediente, protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor, mas que não valorizava o homem do povo, o homem simples que todos os dias sorri para seus patrões, com a benevolência típica das classes menos abastadas, ainda que não esfomeadas, porque o Brasil mudara; que era esse homem que merecia uma contraparte, um bom-dia apenas que fosse, uma expressão sincera e singela de quem quer dizer “estou aqui para fazer a sua vida seja mais fácil, com o compromisso da Prefeitura de São Paulo e da Câmara dos Vereadores”.

Foi este discurso o mais significativo e marcante da carreira de Adhemar, porque lhe rendeu reeleição por mais dois pleitos e uma tarde e uma noite de sexo que foram além do papai-e-mamãe, aquela com a esposa, esta com a amante, sua secretária.

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