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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 6 - Angélica, bondosa e cidadã

Não é necessário sair do lar de Fabiano para descobrir que Deus deposita bênçãos demais em algumas casas – deixemos de lado a constatação de que em outras, não há uma dádiva sequer, Deus escreve certo por linhas tortas, é o que diz o povo, é assim que deve de ser mesmo. Pois é a mãe de Fabiano, Dona Angélica, o pilar sobre o qual se sustenta toda a estrutura daquela família feliz, que certamente inspirou as propagandas de manteiga e os adesivos de carros: Dona Angélica preparou, ao longo de seus quase cinqüenta anos de casamento, o café da manhã para o marido e para os filhos, que debatiam, felizes, as leituras feitas na revista semanal de variedade mais vendida do país. Talvez o único deslize moral de Angélica tenha sido casar-se grávida, porque a libido do marido, na época em que eram namorados, era acentuada, Deus proteja o casal, eles se amam e amam os filhos, fazem tudo por suas crias.

Vemos agora, diante de nossos olhos, todas as provas de amor de Dona Angélica pela família: agora ela estaciona o carro em local proibido, impedindo a passagem de qualquer outro automóvel, na frente da farmácia, para comprar rapidamente os remédios para seu menino mais velho; agora ela atravessa o farol vermelho para chegar mais rapidamente à escola das crianças para não traumatizá-las, porque crianças que esperam muito pelos pais sentem-se rejeitadas; agora ela pede ao eletricista que faça um gato na ligação de TV a cabo do vizinho, para que as crianças tenham acesso à CNN, tão importante para a formação de indivíduos bem-informados; agora ela não paga a mensalidade da escola, para pagar a viagem à Disney, porque nem tudo na vida é estudo, as crianças também têm de se divertir, afinal o que se leva desta vida são esses bons momentos em família; agora ela mente ao irmão, dizendo-lhe que o estado do carro usado que vendeu a ele era perfeito, mas aquela carcaça não prestava para quase nada, porque Fabiano estragara a máquina nos rachas, mas o que interessava é que aquele dinheiro seria usado de entrada na casa que comprariam no condomínio fechado, o que garantiria a qualidade de vida da família; agora ela fecha os olhos aos largos maços de dinheiro que o marido traz para casa, certamente obtidos no bingo; finalmente agora ela não diz ao filho o que pensa a respeito do livro dele – para ela aquilo é uma montanha de bobagens escritas para tomar dinheiro a pessoas ignorantes e para vender-lhes sonhos que jamais serão realizados –, porque o que interessa é a felicidade do filho, todo sorridente e importante no dia do lançamento da sua primeira obra mais vendida.

Mas mesmo a vida de Angélica terá um grande momento – um momento ainda maior do que os relatados acima, todos importantes, todos marcantes, todos relevantes, porque demonstram o esmero com que aquela mãe cuidava daqueles filhos. Podemos vê-la agora, secretamente, na urna de votação, digitando os números de seu candidato – aquele cuja plataforma política defendia a honestidade na administração pública, o compromisso com a ética, o comprometimento com todas as classes sociais. Angélica é uma cidadã – ela sabe muito bem disso – e pode escolher livremente os políticos em que votará.

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