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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 7 - O humor e o cachorro de Cassandra

Dona Angélica não pode sequer supor que Cassandra, a moça antipática que a atendera no dia da votação, faria tudo para ver a mãe zelosa morta. Cassandra odiava política, políticos e cidadãos em geral. Depois da aula de literatura no colégio particular mais caro da cidade, ao descobrir os Ultra-Românticos, tomara para si a idéia de que a vida é árida e penosa, e aguardava ansiosamente por uma morte cênica e marcante. Rejeitava tudo: o convívio familiar, as regras impostas pelas freiras do colégio, os padrões de comportamento dos alunos mais populares da escola, as transgressões dos nerds revoltados. O pai de Cassandra, dentista bem-sucedido, saía de casa antes das seis da manhã, para dar aula na Cidade Universitária, e sua mãe passava o dia no clube, no coração dos Jardins, ou nas lojas da Oscar Freire. Na casa de Cassandra não havia café-da-manhã à moda de propaganda de manteiga; ela fumava o primeiro baseado no caminho para o colégio e passava a manhã zureta, zureta, aturando as falas dos professores e o besteirol dos colegas.

Mas mesmo um ser naturalmente mal-humorado e insatisfeito como Cassandra experimenta um grande momento nesta vida. Podemos vê-la, agora, ser aprovada na faculdade de arquitetura da melhor universidade do Brasil; para ela, esse teria sido o grande acontecimento, não fosse um outro, já lá vamos, leitores virtuais são apressados. Cassandra lia e desenhava compulsivamente, brilhava em todas as disciplinas, apesar de seus modos nada amigáveis e de seu visual assustador, com unhas, batom, roupas, olhos, tudo muito preto, exceto a pele, essa muito branca, ela se imaginava como um símbolo brasileiro do yin-yang. Dinheiro não era problema – tinha-o à vontade para comprar todos os livros, CDs e entradas em espetáculos que quisesse. Cassandra, embora desprezasse todas as regras, todos os padrões, todas as leis de comportamento, toda a humanidade, enfim, cumpria religiosamente e sem nenhuma vontade todas as tarefas que se lhe impunham, com o fito claro de livrar-se logo delas. Até que, um dia, solenemente, recebeu a intimação para trabalhar nas eleições – o que a deixou extremamente contrariada, porque ela adiara a emissão de seu título de eleitora para os dezoito anos; depois que não foi mais possível evitar o exercício legítimo da cidadania no Estado Democrático de Direito, punha-se em primeiro lugar na fila de sua seção de votação, no meio de velhinhos e velhinhas, para se ver livre daquela obrigação inútil.

É desnecessário dizer que Cassandra sempre votou nulo – até o dia em que teve de trabalhar nas eleições. Foi ali que viu, na hora do almoço, ser preso um rapaz de olhos radiantes, de um brilho misterioso e político que nunca vira antes, acompanhado de um cachorro enorme. Foi ali mesmo que ela assumiu a primeira grande responsabilidade de sua vida, atendendo ao pedido do rapaz, Cuida do meu cachorro?, pediu ele, num tom ao mesmo tempo doce e impositivo, que a encantou, enquanto era preso por fazer propaganda de boca-de-urna.

O rapaz nunca voltou como prometera – e Cassandra afeiçoou-se àquele cachorro como jamais se afeiçoara a nada nem ninguém neste mundo. Desde então, associou-se a ONGs que protegem animais, projetou canis que garantiam qualidade de vida a bichinhos confinados e vestiu-se com todas as cores.

Um comentário :

Queta disse...

Ainda penso fazer o mesmo que Cassandra.
Beijos