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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 8 - Quissífodas, a tese de doutorado e a máquina do mundo

Para Rafael Araújo, porque me ensinou que tudo que é sólido desmancha no ar


Vestida com todas as cores, Cassandra dispôs-se a conhecer a humanidade e tomou contato, nos meios universitários, com Quissífodas, jovem acadêmico, estudante de filosofia, filho de um grego especulador imobiliário e proprietário de revendedoras de automóveis importados com uma quatrocentona daqui de São Paulo mesmo. A sina maldita de Quissífodas era a paixão pelo saber – largamente alimentada pelo pai, porque todos os gregos carregam no sangue um pouco de Sócrates, Platão e Aristóteles, escalação digna da seleção brasileira, era o que Quissífodas pensava secretamente, e pela mãe, cuja família tinha contribuído sensivelmente para os quadros de professores da maior universidade do país. Acontece que os estudos de filosofia não entravam na cabeça do jovem estudante – muito menos o idioma alemão, único em que é possível filosofar, era o que todos os colegas diziam, a despeito dos protestos do pai.


A relação de Cassandra e Quissífodas foi efêmera, porque ele, de um lado, não suportava o cheiro de cachorro na casa dela; ela, de outro, rejeitou-o porque ele não se sensibilizava com as causas dos animais, ao contrário: só se preocupava com a tese de doutorado que deveria depositar dali a quatro meses, sem certeza alguma do que já havia redigido: um texto obscuro, de longos parágrafos .


Desolado com o final da relação, Quissífodas saiu a pé, debaixo de chuva, da casa de Cassandra. Não vá o leitor imaginar que ele tinha longos quarteirões a percorrer ou que corria risco de ser assaltado nesta cidade violenta: ela morava numa casa no Pacaembu, ele num apartamento em Higienópolis. E aquela caminhada deprimida ficou assim, além de filosófica e cinematográfica, preservada de sobressaltos de ordem social.


E foi na frente do glorioso Estádio do Pacaembu, em que assistira a muitas vitórias de seu time do coração, que Quissífodas teve a visão que foi o grande acontecimento de sua vida. E como se caminhasse lentamente, chuva na cabeça, perscrutando as razões intrínsecas daquele rompimento que o levava quase a carpir-se, Quissífodas tomou um susto quando viu, na sua frente, a máquina do mundo: um Ford T original, que guardava em si todos os segredos da realidade, todos os mistérios do homem, todas as verdades desveladas e as ainda ocultas à visão humana, todos os sistemas políticos, todos os modos de produção, todas as formas de poder, todas as formas de morrer por nada. E a máquina ainda tomou proporções maiores, ampliando-se em centenas de outras, todas tão antigas quanto ela, desfilando aos seus olhos, mas contendo todas os mesmos segredos, todos elevados a uma potência incalculável de tantos zeros que continham.


Mas todo esse esplendor foi súbita e violentamente interrompido pela explosão furiosa do escapamento de uma Harley Davidson, que interrompeu o vislumbre e a maravilha de tudo que lhe faltava à tese. Com as mãos pensas, as retinas fatigadas e um fio d’água entrando-lhe costas abaixo e atravessando a cueca, rumo ao ânus, gritou, filósofo:


– Que se foda.


Abandonou a tese, pediu ao pai um carro importado e foi trabalhar com ele, em uma das concessionárias.

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