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domingo, 25 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 9 - A epifania de Tréssio

O estampido seco da motocicleta – que é também uma versão da máquina do mundo, só que em duas rodas – não foi ouvido somente por Quissífodas. Também Tréssio o ouviu – no exato momento em que discutia, no curto intervalo de tempo de um farol vermelho, na Avenida Pacaembu, com um motorista que o havia fechado instantes antes. O estalo desconcentrou Tréssio, e os impropérios que dirigia a seu irresponsável e inábil interlocutor – uma senhora de sessenta anos – ficaram pela metade, como que sinalizando que o mal pode ser interrompido mesmo depois de ter começado.

Nesse momento de epifania, calou-se, porque, pensou ele, muitas vezes, o silêncio pode ser melhor que a fala exaustiva; fechadas violentas podem ocorrer não por maldade intencional, mas por inabilidade de quem fecha e de quem é fechado no trânsito; a velhice chega para todos, mas não no mesmo ritmo nem na mesma hora; e pode haver muita coisa boa num acontecimento que parece ruim.
Assim, tomado pela lição simples, dolorosa e reveladora que experimentou, deixando todas as ironias e as agressividades irem embora no eco traumático que desapareceu no tempo, aguardou pacientemente que o farol abrisse para ir para casa, em que o esperavam esposa e bebês.

Um comentário :

HBMS disse...

as lições mais simples quando desvendadas serão sempre lembradas no decorrer da vida :)