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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 1 - João Celerino e o lucro

Dizem que toda vida, mesmo que breve, sempre guarda um grande acontecimento. Os homens podem não ficar sabendo, os jornais podem não publicar, nem todos os seres viventes vão ao Jô Onze e Meia dar entrevistas – mas em toda vida há um ato digno de nota, um fato relevante, um momento que merece a atenção dos homens que estão assistindo aos vídeos do YouTube. Nem só os atos humanos merecem atenção: os animais, por vezes, ganham os noticiários, rebeldes de sua condição; as árvores têm os quinze minutos de fama ao destruir casas e carros nos verões de São Paulo.

Observe-se, por exemplo, João Celerino, morto com apenas três meses de idade. João nascera forte e gordo, pronto para ganhar o mundo. Síntese dos genes e dos nomes da mãe e do pai – Célia e Severino – João era criança cuja concepção fora milimetricamente planejada, bem como a data de seu nascimento, que aconteceu no período de férias dos progenitores que puderam, então, juntamente, como seria o ideal, educar o infante nos noventa dias de existência que teve. Célia, professora de inglês, conversava com a criança nesse idioma, enquanto lhe dava banho, e lia-lhe o longo romance ...Gone with the wind para que dormisse. Enquanto passeava no berço, Celerino descobria com o pai as maravilhas que experimentaria ao herdar-lhe a pequena empresa, aberta fazia dez anos, com muito esforço e muito trabalho, depois dos amargos anos de crise da década de oitenta. O pai divagava um pouco, é verdade, quando explicava ao filho as diferenças entre a declaração de imposto de renda com lucro presumido, de um lado, e a de lucro real, de outro; mas foi exatamente nesse momento, aos exatos três meses de idade, que Celerino disse a primeira e última palavra de sua vida: era “luco”, termo ainda incompreensível, devido à dificuldade de articulação verbal da pessoinha que ainda engatinhava no chão da língua, mas interpretado pelo pai como corruptela da palavra “lucro”.

A alegria de Célia e Severino durou pouco: no final da mesma tarde, apressadamente, Celerino morreu de falência múltipla dos órgãos, inexplicavelmente.

Clique aqui para ler o segundo conto da série.

2 comentários :

Bruno Torelli disse...

Fenomenal! Apesar da triste pequena história é um texto carregado de insights da vida moderna.
Adorei o desfecho marcado pelo antagonismo entre "lucro" e "falência" situações cotidianas de, assim como João Celerino, muitas empresas brasileiras.
Parabéns!!!

Rogério Duarte disse...

Obrigado, Bruno!