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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 2 - Onejar devolve tudo

Se Celerino tivesse sobrevivido, estudaria na escolinha “Tradição Infantil”, instituição fundada exatos sessenta anos antes de Celerino nascer. Lá, nosso herói de vida curta faria parte do grupo de alunos mais inteligentes, porque sempre receberia a nota máxima, sobretudo em língua inglesa, ensinada na escola desde o berçário. Seu antípoda seria Onejar, garoto apagado, feio, mirrado, sempre com uma nesga de escarro pendente do nariz, de pernas finas que não serviam para correr no campinho de areia. Mas a vida escolar, deus esteja conosco, não determina o destino de ninguém – Onejar tornar-se-ia, na vida adulta, presidente de uma empresa multinacional automobilística instalada do Brasil.

Agora, entretanto, podemos vê-lo brincar com miniaturas de carrinhos, cuja linha de produção e estratégia de marketing ele já sonha em administrar. Seus pais faziam-no visitar, desde a mais tenra idade, fábricas, grandes empreendimentos imobiliários, sedes de grandes empresas, com o fito de criar no garoto o gosto pelo empreendedorismo. Se saltássemos os anos e contemplássemos a vida adulta de Onejar, perceberíamos o gosto dos pais ao receber a notícia de que o filho tinha sido convidado por um head hunter para a presidência de grande corporação. Para eles, esse foi o grande feito de Onejar.

Trata-se de um equívoco, evidentemente: é no canto do campinho de areia que está o Rosebud de Onejar. Uma miniatura de uma Mercedez Amarela é todo o mundo do garoto; por ser franzino, entretanto, Onejar não é respeitado pelos coleguinhas mais fortes – exatamente aqueles que fariam companhia a Celerino, se ele tivesse sobrevivido –, que lhe pisam impiedosamente as miniaturas. Mas a partir de hoje, tudo mudará: é hoje o dia do grande feito de Onejar, é hoje a última vez que ele será humilhado pelos colegas.

Quando um dos garotos pisa-lhe a réplica do status, Onejar não tem dúvidas: mete dois dedos na garganta – assim como fazia Giselle, sua irmã adolescente, toda vez que exagerava no chocolate – e devolve ao coleguinha todo o todynho tomado no intervalo, dois tatus-bola que devorara secretamente no jardim e um resto de meleca de nariz que lhe ficara presa aos lábios.

Clique aqui para ler o terceiro conto da série.

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