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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 4 - José Aceite disse não

A descoberta de Das Dores foi, à primeira vista, um azar para José Aceite, que era um dos amigos dela, mas digamos tudo: era o de performance sexual mais insatisfatória que ela já experimentara. E assim foi até o dia da grande guinada na vida de Aceite, cobrador do ônibus em que Das Dores teve o orgasmo, mas sem ele, é evidente, homem que agradava a todos, aceitava-lhes as opiniões com parcimônia e não emitia um juízo pessoal sequer.

Zé Aceite, todos o chamavam dessa forma, não era assim por covardia ou submissão: o pai lhe ensinara que viver sem desassossegos grandes era uma arte. Aceite não brigava com os meninos da rua, não discutia com os professores e terminara a oitava série tranqüilamente, sem se meter em uma só briga ou discussão. Para conseguir o que queria, Aceite desenvolvera, pois, a arte da simpatia e do sorriso – era gentil com todos, fazia-lhes as vontades, lembrava-se dos aniversários, não faltava aos eventos sociais a que o convidavam, concordava com tudo e com todos, ouvia as aflições alheias. Nos lances mais delicados, como as fofocas da família, dos amigos ou dos colegas de trabalho, tomava momentaneamente o partido dos que lhe confiavam puxadas de tapete, traições ou roubos, para depois consolar as vítimas de atos tão condenáveis para todos, mas que para ele eram indiferentes. Aceite nunca fazia leva-e-traz e jamais dava recados: guardava para si os conflitos em que nunca se meteu de fato.

Foi essa placidez que encantou Das Dores – e todas as outras mulheres que Aceite tivera na vida. Mas Das Dores descobriu o orgasmo solitário e não demorou em dispensar seu amante menos fogoso – porque até na cama Aceite era neutro ao extremo, o que desagradava a inspetora. Desolado, Aceite foi para casa e embriagou-se exageradamente – mas solitário, para não incomodar ninguém. Como nunca havia ocorrido antes, perdeu a hora, deus nos livre de acordar às quatro para trabalhar depois de um rompimento amoroso e um porre. Depois de uma noite de sonhos violentos, em que fodia a Das Dores de quatro, acordou furiosamente com o toque do telefone; era o supervisor da empresa, que lhe perguntava se ele não viria trabalhar, ao que Aceite respondeu:

– Não.

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