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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O grande acontecimento 5 - Fabiano, o intelectual da família

Santa palavra aquela proferida por Aceite, desde aquele dia adotada com vigor, porque rendeu a ele a demissão, meses de desemprego e retorno à escola, por meio de um supletivo, em que conheceu a mulher de sua vida, casou-se e melhorou o próprio desempenho sexual. E foi na sala de aula do supletivo que Aceite estudou com Fabiano, rapaz de dezoito anos, filho de boa família trabalhadora, afeito mais às cervejas com os amigos desocupados, à lavagem dos três carros da família, aos rachas nos finais de semana, do que aos estudos, mas ninguém pode viver neste país sem estudar – ao menos é o que afirmava o pai, que também não tinha diploma, mas que sonhava – e de fato dera – para os filhos uma vida melhor do que a sua, perdida, segundo ele, na pequena burocracia de uma repartição pública.

Fabiano desistira dos estudos no primeiro colegial, mas cursava o supletivo para concluí-los – sob a condição paterna de ganhar um carro novo caso ingressasse na faculdade de Administração, qualquer que fosse. Para o pai, Fabiano, além de preguiçoso, era um ingrato, afinal desperdiçava a vida em vadiagens sem tamanho e adiava os estudos que lhe dariam uma carreira na iniciativa privada, a melhor forma de enriquecimento. Foi no supletivo que Fabiano tomou contato, pela primeira vez, com a revista semanal de variedades mais vendida do país, que, segundo o pai, era a fonte primeira de todo o conhecimento. Era por meio dela que Fabiano poderia tomar contato com o mundo da política, dos negócios e da arte moderna, também importante para um executivo de sucesso. Fabiano encantara-se com a dica do professor de Língua Portuguesa, que recomendara um livro de autoajuda – o primeiro da lista dos mais vendidos da revista – aos alunos que não conseguiam vencer as dificuldades que as provas lhes ofereciam. Leu o livro e leu alguns artigos da revista; embora tivesse a nítida sensação de que não lera nada, de que continuava rigorosamente o mesmo depois de árduas horas de esforço descomunal, citava trechos dos textos nas mesas de jantar da família, nas rodas de bar com os amigos, no drive-in com a namorada na sexta à noite – hábito que não se perdera, embora o automóvel em que trocavam carinhos já não guardasse o cheirinho de novo, que tanto excitava o casal.

Foi essa carga brutal de leitura que rendeu a Fabiano o grande momento de sua vida. Aprovado com louvor nas avaliações do supletivo e invejado pelos amigos devido ao carro novinho na garagem, nosso herói percebeu que seus colegas menos capazes padeciam de falta de estímulo para os estudos. Escreveu um livro de autoajuda para os estudantes que não conseguiam a aprovação – tarefa que só foi possível devido às sábias correções gramaticais do professor de língua portuguesa; o proprietário do supletivo, encantado com os frutos de sua instituição, abriu uma editora e publicou o livro, que foi best-seller durante anos. E foi na formulação do plano de marketing da obra que Fabiano experimentou o grande acontecimento de sua vida: a descoberta de que as listas dos livros mais vendidos eram compradas. De posse deste conhecimento, decidiu-se definitivamente pela carreira de escritor de sucesso, abandonando a carreira corporativa e a faculdade de Administração, o que, inicialmente, irritou seu pai. Mas com o tempo o progenitor entendeu o que acontecera e conformou-se, afinal os filhos não podem ser tudo o que os pais querem; aquele garoto não dava mesmo para a carreira corporativa, porque era fraco para enfrentar a competitividade da iniciativa privada: Fabiano era, afinal, o intelectual da família.

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