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domingo, 1 de fevereiro de 2009

O grande acontecimento 16 - A escalada social de Christian Dior Palha

O leitor já terá percebido as alterações substanciais que ocorrerão com o Brasil no futuro próximo: efetiva preocupação da classe política com as classes populares; crescimento do mercado editorial com obras de real interesse público; assuntos de relevância publicados na revista semanal de variedades mais vendida do país; desenvolvimento de vanguardas na área da moda que nos colocam à frente de outras nações no mercado de luxo. Falta-nos, agora, observar que a ascensão social será finalmente garantida, por meio do grande acontecimento da vida do fotógrafo Christian Dior Palha.

Comecemos pelo nome, híbrido de estilista francês com o sobrenome corrente no Brasil: a mãe de Christian, Sophia, manicure de Vênus, deu ao filho o nome que vira exaltado pela cliente inúmeras vezes – era uma forma de destinar o primogênito ao sucesso, por meio da arte da moda. Desde criança, Christian recebia retalhos de pano para costurar e passeava pelo Shopping Center Iguatemi, sem comprar nada, mas admirando as lojas de grife e prometendo à mãe que seria um estilista de sucesso. Digamos tudo: subtraídas as viagens ao Litoral Norte nos fins-de-semana, as compras, o acesso às escolas particulares, o intercâmbio nos Estados Unidos, a formação de Christian foi idêntica à de seu antípoda social, Doutor Apolo. Eis aí uma explicação possível para o desfecho da história, a que já vamos.

Acontece que Christian não tinha talento algum para ser estilista. Sem abandonar o sonho de sua mãe, que era já também o seu, terminou o colegial e, sem ânimo para cursar uma faculdade de moda, fez um curso rápido de fotografia e de Photoshop. Ao fotografar a progenitora, tirava-lhe, no computador, as rugas, as estrias, as celulites, os bigodes chineses, os pés-de-galinha, as pálpebras caídas, a papada, tudo que lhe poderia soar deselegante ou feio mesmo. Essa habilidade de reconstruir a própria mãe rendeu-lhe um portfólio interessante e até sensual, já que transformava uma senhora acabada de cinquenta e seis anos em uma jovem de trinta.

Esse talento é que o fez tornar-se fotógrafo de moda e das colunas sociais da revista semanal de variedades mais vendida do país; o leitor já terá adivinhado que foi ele quem tirou a fotografia do rosto assimétrico de Maria Fulam. Mas jamais terá adivinhado que a foto publicada escondia boa parte do cálculo confuso de botox do Doutor Apolo. Nem poderá supor que este convidou o fotógrafo para ilustrar a obra A Estética da Assimetria, em cujo lançamento solene – o grande momento da vida de Christian – encontraram-se as mães dos heróis. Vênus, impressionada por encontrar na Livraria mais badalada da cidade sua própria manicure, calou-se por um instante; por outro lado, à vontade por perceber que, finalmente, de alguma forma se realizava a sina que dera ao filho por meio do nome, Sophia sorriu para a antiga cliente e dirigiu-lhe a palavra:

– Dona Vênus por aqui!

E a outra, assustada e envergonhada por conversar com aquela mulher simples que lhe fazia as unhas:

– Que prazer, Sophia! Que você está fazendo aqui?

– É que as fotos do livro foi meu filho que tirou!

– E o livro foi meu filho que escreveu! Que mundo pequeno!

– Mundo pequeno...

E Sophia saiu sorrindo, porque não achava que o mundo era pequeno – era a injusta divisão de renda que se extinguia, como afirmava, naquela semana, a revista semanal de variedades mais vendida do país.

Um comentário :

Ana disse...

Rô, adorei todos!!!! Agora estou em dia, viu???? Por enquanto gostei de Sophia, Vinícius, João Aparecido, e quase gostei do Aureliano.... rs Ah, e veja se você consegue postar aqui, de novo, o texto dos anjos na biblioteca, que ficou uma graça! Beijocas! Te amo!