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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O grande acontecimento 17 - O refrão de Vacâncio

Basta de encontros e pontos de contato entre as histórias: o leitor virtual já terá se enjoado de buscar nos marcadores do blog, ao ler um dos contos, as personagens e as situações de outros, para poder entender os próximos. Quanto mais fios fazem que as histórias se encontrem, maior é o tédio do leitor, que esse ir e vir, voltar atrás e seguir adiante, isto é leitura do passado, limitada ao papel, cujo gosto e cheiro há de passar, dizem os preconizadores do hipertexto. Na internet, lê-se uma vez o texto na tela, emite-se um sorriso vago se a leitura quase agrada, procura-se um link para partir para o próximo texto, que será igual ao que já passou, e todos eles hão de ser sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa.

Pois bem: o garçom Vacâncio servia uísque aos participantes do evento de lançamento do livro de Doutor Apolo e de Christian. Suprimo-lhes os nomes: para Vacâncio, aquele era um evento qualquer, de gente afrescalhada que se amontoava em torno de uma mesa à cata de uma pilha de papel – que, na opinião dele, não servia para mais nada a não ser fazer fogo na churrasqueira, enquanto seus amigos tocavam as músicas que todos haviam composto, juntos, ao longo da semana.


Entenda o leitor que, no Brasil do futuro, é possível levar uma vida digna em profissões que exigem pouco do intelecto. Vacâncio era garçom porque tinha insônia, e as longas horas de trabalho, madrugada adentro, mantinham-no entretido até o início do dia. Ele tinha em casa todos os bens que garantem a felicidade e a qualidade da vida humana – TV enorme, de plasma; som; DVD; geladeira; máquina de fazer arroz; máquina de dar cheiro de praia; máquina de lavar roupa; máquina de lavar prato; máquina de lavar alma; e muito mais – inclusive um computador de larga memória, cujo software mais usado era o de produção musical. Ali, seus amigos se reuniam e criavam, com ele, as músicas que queriam; quando consideravam pronto o produto, disponibilizavam-no na internet, no site musical de relacionamentos, que os remunerava de acordo com o número de downloads das canções.


O leitor terá notado, também, que nem só de servir uísque se vive no Brasil do futuro; também é possível ser músico – mas, em qualquer tempo e lugar, todas as ocupações guardam dificuldades. A de Vacâncio e seus amigos era produzir uma música nova por semana, já que os ouvintes do futuro descartavam semanalmente as produções de semanas anteriores. Ficava assim garantida a diversidade da canção popular brasileira, cuja cultura será tão rica que terá milhares de hits semanais postados na internet.


Podemos ver Vacâncio no grande momento de sua vida: ao sair do estacionamento, passou na frente da saída do buffet, no bairro de Higienópolis, com o volume máximo de seu aparelho de som, tocando a música de seu conjunto, que liderava as paradas daquela semana, num ritmo que chamavam de tecno-axé-popular-industrial-lounge-samba-rock-pop-funk-psicodélico-forró, com arranjos clássicos de sonoridade brega com influências da canção hispano americana: “Eu insisto no refrão / No refrão, no refrão, no refrão / Eu insisto no refrão / No refrão, no refrão, no refrão / Eu insisto no refrão / No refrão, no refrão, no refrão / Eu insisto no refrão / No refrão, no refrão, no refrão”. E a seguir: “Eu repito o refrão / o refrão, o refrão, o refrão / Eu repito o refrão / o refrão, o refrão, o refrão / Eu repito o refrão / o refrão, o refrão, o refrão”.


A música fizera sucesso porque era interativa – o público, via internet, sugerira e gravara o seguinte trecho da letra: “A gente gosta do refrão / do refrão, do refrão, do refrão / A gente gosta do refrão / do refrão, do refrão, do refrão / A gente gosta do refrão / do refrão, do refrão, do refrão”.

4 comentários :

Anônimo disse...

Brilhante!!!

Rogério Duarte disse...

Obrigado, anônimo!

Anônimo disse...

terá sido influência da tarde de hoje?

Rogério Duarte disse...

Mas de que tarde você está falando, anônimo?