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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

O grande acontecimento 19 - A promessa de Martí

O leitor certamente imagina ou deseja que, neste conto, com os mais melados recursos de estilo, seja narrado o grande acontecimento da vida de Seu Saodi; mais do que isso: o leitor espera que a punheta que ele ganhou da esposa desponte como novo arrebol de uma vida já desgastada.

Nem isto, nem aquilo. O marido de Dona Saodi experimentou momentos muito melhores do que uma simples masturbação – e nem em todos eles o marido estava ao lado da esposa. Assim é a vida real, posto que estes contos sejam histórias inventadas e não acontecidas.

É do cachorro de Dona Saodi que falaremos. Martí era seu nome, em homenagem ao cantor Rick Martin, que a filha de Dona Saodi adorava. O mundo de Martí era o apartamento e os poucos passeios, embora diários, que a dona lhe oferecia. Nem no Brasil do futuro os cachorros foram entendidos, daí a falta de vira-latas nas ruas: a despeito de todas as campanhas de caráter humanístico, digo cachorrístico, contra o extermínio dos cães de rua, venceram as autoridades graves, que viam nos animais um problema de saúde pública.

Martí entendia o que os humanos diziam, ainda que não entendesse palavra por palavra. Sabia que o dono o via como um capricho da esposa; que esta o via como um serviçal (o que só mudou quando Martí negou-se a ouvir os gritos de Dona Saodi e depois, como veremos, fugiu); e que a filha da dona o via como brinquedo. Martí decidiu, então abandonar aquela casa, em nome de uma vida menos ordinária.

Era de cortar o coração vê-lo descer a Rua Conselheiro Brotero, rumo ao Minhocão: as pessoas desviavam de Martí, como se ele carregasse consigo alguma doença. Só na altura do Minhocão Martí foi acolhido por um humano – um mendigo, contra o qual recaíam os mesmos olhares de nojo que haviam se debruçado sobre Martí.

E essa foi a melhor época da vida do cão, que passeou livre pela cidade, dormiu agasalhado junto ao mendigo que o acolhera, comeu de tudo que se pode imaginar, de gatos vivos a restos de lixo de Higienópolis. Mas um Audi apressado, que subia a Angélica, pôs tudo a perder: tirou a vida ao mendigo, além de acabar com a audição do lado direito de Martí. Sangrando, desesperado, sem compreender porque aquele monstro barulhento de olhos tão brilhantes havia machucado seu novo dono que o tratara tão bem, Martí rosnava, e gania, e chorava rouco ao lado do corpo do mendigo. Exausto, Martí adormeceu no próprio asfalto, prometendo jamais dar ouvidos a qualquer humano.

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