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segunda-feira, 2 de março de 2009

O grande acontecimento 20 - A aceleração e a consciência de Ayrton

O leitor deve estar agastado com o atropelamento de Martí e torce pela sorte do cão. Mas há de convir que há fatos na vida e na literatura que devem ser deixados de lado, esquecidos completamente, para que se possa alcançar a paz interna, deus esteja conosco e nos proteja de motoristas embriagados em Audis possantes, mesmo no Brasil do Futuro, em que os acidentes de trânsito não foram reduzidos.

Podemos ver Ayrton subindo velozmente a Avenida Angélica, em seu Audi possante, suando frio, subitamente sóbrio – é o efeito da adrenalina – observando o humano que se espatifa no asfalto como uma marionete que ele nunca foi, porque mendigos, no Brasil do Futuro, só são os vagabundos, os preguiçosos, aqueles que não querem trabalhar, já construímos nosso próprio brazilian way of life, é o que Ayrton repete a si mesmo, mas volta os olhos para o retrovisor e vê agora o cachorro que late, que ensaiou persegui-lo, mas que retornou ao dono, manca de uma perna, sangra de um lado, aleijei um cachorro, meu deus, matei um cara e aleijei um cachorro, caralho, é o que Ayrton balbucia, mas também, por que raios o homem tinha um cachorro, isso é proibido, o Brasil é um país diferente agora, não tem animais indigentes pelas ruas, eu fiz um bem à nação, tirei das ruas uma besta irracional que a polícia não tira, eu vou ligar para o meu pai que tem um amigo juiz, se alguém anotou a placa, eu me fodo, se a porra da minha esposa descobrir que eu estava bebendo eu me fodo.

O raciocínio de Ayrton seguiu intrincado e complexo até sua casa, ali perto, na Rua Maranhão, em que, felizmente, sua esposa não o esperava. Ligou a TV, percebeu pelo noticiário que ninguém havia anotado sua placa e relaxou ainda mais. Assistiu ao reencontro do cão atropelado com sua dona original, uma senhora japonesa, até que era gostosa a coroa, dava pra comer, foi o que ele pensou, mas imaginou que seria muita sacanagem, quase doença, foder mais uma vez com a velha, ela que já tinha sofrido com o cão atropelado. No mais, ela declarou ao repórter que seu cachorro fora roubado pelo maníaco que ali morrera – e que havia notícias dos comerciantes do minhocão de que ele, digo o mendigo, claro está, se aproveitava sexualmente do cão. Ao ouvir essa frase, o repórter não pôde controlar o riso, mas Ayrton sentiu a consciência aliviar-se. Tirou a roupa, dirigiu-se à máquina de lavar alma, que comprara recentemente e dormiu o sono dos justos, argumentando a si mesmo que tirara ao mundo um mendigo preguiçoso, ladrão de animais de estimação e maníaco sexual – se a TV disse que ele era isso, é porque ele era isso mesmo –, fizera papel de intermediário entre uma dona e seu cão perdido, além de ter se dado bem, sem problemas com o Departamento de Trânsito. Ayrton, no final, sempre se dava bem – era o que lhe passava pela cabeça no momento em que adormeceu. Ayrton era um herói – o nosso herói.

3 comentários :

Flavio disse...

Nossa! Curti muito, mas parece que se vc espremer um pouco, sai um veneno mortal como nenhum outro.

"foder mais uma vez com a velha"
essa foi genial!

Rogério Duarte disse...

Veneno? Mortal? Ora, Flávio... Ayrton é o nosso herói!

Ramon Chaves. disse...

do caralho.