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terça-feira, 10 de março de 2009

O grande acontecimento 21 - A invenção da máquina de lavar alma

Já vimos que Quissífodas, no Brasil do passado, teve a chance de contemplar a máquina do mundo - ocorrência que lhe foi suficiente para abandonar o doutorado e decidir trabalhar numa das concessionárias do pai. Trabalhou, trabalhou mais, ganhou honradas e suadas patacas e sagrou-se empresário de sucesso, posto que o grande momento de sua existência tenha sido o adeus à vida acadêmica.

Não devia estar mesmo na família o espírito reflexivo, necessário a todos aqueles que pretendem contribuir para a evolução da humanidade. Há, ainda, os que o fazem de forma diversa - foi o caso do filho de Quissífodas, jamais lembrado nos compêndios virtuais do Brasil do futuro, esquecido até por este autor, a despeito das pesquisas por ele empreendidas para que todas as histórias contadas aqui tivessem a mais vera procedência.

Ocorre que o inventor, depois do sucesso financeiro do pai, meteu-se a estudar engenharia na maior universidade do país. Desde criança dizia que seria inventor maluco, como o Professor Pardal das histórias em quadrinhos; queria, principalmente, inventar alguma coisa que entrasse na história da humanidade. Diplomado, deu-se conta de que as aflições humanas - e sobretudo as brasileiras - transcendiam os bens materiais, conclusão que o levou a mergulhar no estudo das religiões e da filosfia. Esta, abandonou-a rápido, dado o histórico familiar. Foi com aquelas que surgiu a máquina de lavar alma.

Numa reunião kardecista, munido de crucifixos bentos pelo próprio papa, bíblias protestantes, vestido à budista, com imagens pagãs de religiões de todo o globo, mas principalmente as de origem africana que tinham ganhado espaço no Brasil, invocou o demônio. Expôs-lhe com objetividade o que pretendia - criar uma máquina que lavasse a alma aos usuários e que o fizesse famoso. Em troca oferecia a própria alma. O demônio sorriu, afinal não era a primeira vez que recebia uma proposta nesses mesmos termos, mas incomodava-lhe a ideia de investir numa criação que aliviasse nossa melancólica humanidade. Havia na alma do próprio Lúcifer um espírito sacana - por mais que isso possa parecer redundante -, uma disposição maquiavélica que o levou a dizer não à proposta.

O inventor hesitou por apenas um instante e disse que, em troca da criação da máquina de lavar almas, abria mão da fama pessoal. Diante de termos tão absurdos de negociação, o demônio cedeu à tentação que o fustigava desde o início da conversa: tomou a alma do inventor, sem dar-lhe o crédito pela invenção, justificando para si mesmo que só a ganância da proposta já valia o inferno - era essa uma forma de justificar depois, nos relatórios burocráticos do além, o excesso populacional, que, por si só, já era infernal.

Uma das médiuns presentes, a jovem professora de história que ainda ganharia um bom dinheiro vendendo documentos pessoais de habitantes do Brasil do passado, viu a máquina de lavar alma, ali, na sala, sem dono; pensou que poderia ganhar um bom dinheiro com ela. Vendeu-a para uma empresa multinacional, que preservou secreta a tecnologia do aparelho e o nome do inventor.

4 comentários :

Anônimo disse...

dodério, essa máquina já está disponível na bolívia? tenho um amigo que me traz muambas de lá e, creio, sem ela nao posso dar continuidade a alguns projetos pessoais. qdo seu livro for publicado, se alguém da academia brasileira de letras nao o fizer, me candidatarei a escrever a orelha. abraço e parabéns! by the way, me manda o numero da sua conta pra te pagar o bacalhau!!!

Flavio disse...

Uma observação: é no inferno que estão os melhores músicos e onde se dá as melhores festas. Quem aguentaria uma eternidade de êxtase celestial sob o som de harpas divinas?

A melhor coisa do mundo são fumaça, meia luz, calor e levar uns sacos de mijo ocasionais na cabeça, apesar de nojento..XD

Luciano disse...

Certamente os maiores músicos estão no inferno. Alguns talvez insatisfeitos, pois não aprontaram por aqui tudo o que gostariam.
De qualquer forma, impressionante como a criatividade parece inesgotável. E como é genial o nome Quissífodas!
Parabéns Rogério!
Abraço,
Luciano

Rogério Duarte disse...

Rafa: já encomendei sua Máquina de Lavar Alma. Ela se chama boteco na sexta à noite.

Flávio: música boa, cerveja, saco de mijo e reflexão é no inferno, concordo. De resto, o céu é o limite - de quem tem medo.

Luciano:Hahaha! Quissífodas é invenção do Rafael, que enviou o primeiro comentário acima. Eu roubei a ideia dele. É daí que vem a criatividade: dos outros!