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sexta-feira, 20 de março de 2009

O grande acontecimento 22 - O jorro de Meciê Robot

Das Dores tinha orgasmos com as trepidações do transporte público; Fabiano excitava-se mais no próprio carro, quando levava a namorada ao drive-in, às sextas-feiras. Mas a Máquina de Lavar Alma tomou a todas as outras máquinas a capacidade de excitação dos humanos - digo humanos porque nem só os brasileiros se beneficiaram das lavagens de alma promovidas pelo artefato. O fato de ele ter sido inventado no Brasil, por pesquisadores estrangeiros que aqui estavam, não impediu sua difusão pelo mundo - eram essas as palavras publicadas na revista semanal de variedades mais vendida do país.

Observe-se Meciê Robot, francês que se instalara no Brasil havia alguns anos, depois de uma trepada homérica com uma rainha da bateria do carnaval carioca. Era herdeiro de uma fortuna imensurável, as empresas de sua família compunham uma holding importante na produção de carros de luxo. Bom-vivã de primeira, assíduo frequentador dos restaurantes mais caros e das festas mais badaladas do Rio de Janeiro, figurinha marcada das colunas sociais, morador de uma suíte do Copacabana Palace, por preguiça de procurar um imóvel para comprar e por ódio aos corretores de imóveis, Meciê se viu diante de um problema grave - a impotência.

Meciê parou de fumar, e nada; parou de beber, e nada; consultou uma mãe de santo, e nada; tentou transar com a filha da mãe-de-santo, uma mulata belíssima, que lhe pareceu exótica, e nada; consultou um sacerdote calvinista, e nada; voltou ao terreiro, à cata da mãe-de-santo, rezando para Cristo não deixá-lo encontrar com a filha. Lá encontrou uma professora de história, que havia adquirido uma tecnologia que lavava almas. Pelo valor de um carro popular zero, Meciê comprou, ali mesmo, aquela estranha máquina e levou-a para o hotel - não sem antes convidar a jovem professora de história a ir com ele. Sem nada para fazer e a fim de tomar uma cerveja às custas do ricaço, ela topou.

Já no quarto, Meciê tentou comê-la, e nada. Revoltado, ligou a máquina estranha que acabara de comprar: de súbito, foi tomado por uma onda sensações que não podia controlar - o cheiro mais inebriante do carro mais novo, do baseado da lata, do perfume francês mais caro; a sensação por toda a pele de tocar o tecido mais fino, a calça de marca mais confortável, o tapete oriental mais macio, o banco de couro mais rijo; a visão da modelo brasileira mais bela, do ator hollywoddiano mais sexy, do carro mais veloz em movimento, do avião mais rápido decolando, do público desvairado dançando, uniformemente, um hit lançado na semana anterior; e, ao mesmo tempo, o hit tocava, no volume máximo, com os graves acentuados; e finalmente, na boca, o gosto da champagne mais cara, do canapé mais requintado, do caviar mais seleto, e ao mesmo tempo, o da Coca-Cola gelada num dia de calor; todas essas sensações e a imagem das fábricas de Meciê que produziam mais, e mais, e mais, e mais...

Meciê gozou fartamente, num estranho frêmito que assustou a professora de história, que se embriagava enquanto assistia ao estranho espetáculo. Meciê dormiu profundamente por quinze minutos, acordou com um puta tesão, olhou para a professora, olhou para a Máquina de Lavar Alma e - depois de fazer uma ligação para seus sócios franceses, comunicando que descobrira o próximo produto que eles lançariam no mercado - apertou a tecla ON.

2 comentários :

Flavio disse...

Senti uma pitada de Nelson Rodrigues.

Rogério Duarte disse...

Obrigado, Flávio! Já é muito mais do que eu mereço...