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segunda-feira, 6 de abril de 2009

O grande acontecimento 24 - Banzo sai de casa

Chiquinho Toicinho enriqueceu e trouxe alegria aos torcedores da Francesa Desportiva: já vimos que o Brasil parava quando o time jogava. Banzo era o centroavante ágil desse time inesquecível, goleador, "homem-gol" para a imprensa; era assim que o chamavam os jornalistas esportivos - Deus os tenha, não há mais jornalistas culturais, porque no Brasil do Futuro já há cultura para todos os lados, para que noticiá-la? Banzo era um misto de atleta, bom-moço, casado, cristão convicto, festeiro, é verdade, posto que cumpridor e pontual nos treinos; o "queridinho do Brasil", perseguido pelos paparazzi, mas que os frustrava, porque não se excedia, salvo quando os caçadores de fofocas não podiam vê-lo. Banzo era nosso herói, porque marcara um gol decisivo na copa e trouxera a taça de volta ao país, e com ela o orgulho de ser brasileiro.

Banzo viciou-se no uso da Máquina de Lavar Alma antes de completar vinte e oito anos, idade de aposentadoria compulsória dos jogadores de futebol, porque ninguém queria restos e fragmentos de um atleta arrastando-se pelo campo: era ruim para o time, para o moral da torcida, para o retorno dos anunciantes e para a carreira de garoto-propaganda que o próprio Banzo levaria adiante, nos anos seguintes.

Banzo era artilheiro, daí ter sido convidado por uma empresa de armamentos para ser garoto-propaganda - o que ele aceitou sem pestanejar; ao contrário do que pode imaginar o leitor, também o público aceitou-lhe a opção: cada um cada um, o cara tem de sobreviver; sintoma, diremos, da evolução da consciência nacional, afinal finalmente o brasileiro optara pela lógica do trabalho em detrimento da cultura da preguiça, que tanto prejudicara a nação no passado.

Mas o uso da Máquina de Lavar Alma já tomara a vida de Banzo: ele dispensara a esposa, porque fazia sexo com a máquina; esquecera o filho, já que bastavam a Banzo os gols que deixara à posteridade e os gozos espirituais que a Máquina lhe dava; comia pouco, porque quem tem a alma lavada está de barriga cheia; não bebia, por viver inebriado de elevação espiritual (sem a fama, é verdade, que lhe fazia falta, como veremos); ficava em casa, purificado, com asco do contato com as pessoas, que sempre o desagradavam, o que acabava por obrigá-lo a usar mais a Máquina de Lavar Alma. Finalmente, perdeu o contrato com a empresa, por faltar a um evento de demostração de um modelo novo de pistola que fora lançado.

Deu-se o dia que, depois de tê-la usado por três vezes, a Máquina de Lavar Alma, não a pistola, bem entendido, viu na tv a declaração de uma moça linda, que se dizia apaixonada por ele, preocupada com seu desaparecimento momentâneo dos programas de celebridades e das colunas esportivas. Ela disse que o esperava, diariamente, na porta de casa, do outro lado da rua, para vê-lo, sem incomodá-lo, só vê-lo.

Um narrador maldoso diria que a vaidade de Banzo foi aguçada com tal declaração; este narrador não diz nada, apenas que Banzo se arrumou, só para verificar se ainda fazia sucesso, se alguém ainda o esperava na porta de casa, como nos gloriosos tempos em que alegrava o povo brasileiro com seus gols. Arrumou-se metodicamente, saiu pela porta prédio, viu a moça do outro lado da rua, sorriu porque se sentiu famoso de novo e morreu atropelado, dirigindo-se a ela.

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