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domingo, 12 de abril de 2009

O grande acontecimento 25 - A hora e a vez de Macabéa

Os leitores jamais se surpreenderão se este autor lhes disser que a moça que esperava Banzo do outro lado da rua chamava-se Macabéa. Como a mãe adorava literatura! Como a mãe admirava Clarice Lispector! Que dizer de uma mulher forte, que abandonou o marido diplomata, para viver a própria vida afundada em literatura!

(A verdade, digamo-la agora: a mãe de Macabéa jamais lera um livro de Clarice Lispector, mas admirava-lhe a biografia e julgava que isso era suficiente para dar à filha o nome da escritora. Não a julgue, leitor, como este autor também a não julga: deixemos que cada um dê aos filhos os nomes que bem entende. Até porque nomear uma criança não significa marcar-lhe a pele à moda de gado. Cada um faz o próprio destino, nada está escrito nas estrelas, nem nas linhas das mãos, tampouco nas linhas tortas escritas por deus, que não existe nem é brasileiro no Brasil do Futuro.)

Macabéa fora contratada pelo conglomerado de que fazia parte a revista semanal de variedades mais vendida do país para atrair Banzo para fora de casa. O pobre jogador recluso viu na tv uma moça linda dizer que queria vê-lo, que era sua maior fã - o resultado já conhecemos. Resta saber por que Macabéa aceitara essa proposta.

Era simples: Macabéa era de fato fã de Banzo, mas era mais fã do dinheiro que ganharia. Foi abordada na rua por um estágiário do assistente de diretor de marketing da revista semanal de variedades mais vendida do país: ele propôs à moça que dissesse querer ver o jogador, para atraí-lo para fora de casa; Macabéa perguntou-lhe se teria ganhos por expor-se na tv, em cadeia nacional; depois da resposta afirmativa, afirmou que, para aparecer na tv, exigia um extreme makeover, para não passar vergonha na faculdade; finalmente, lembrou-se dos presságios de sua mãe, que lhe dizia que ela, Macabéa, nascera para ser uma estrela.

E foi o que aconteceu: quando Banzo foi atropelado, Macabéa pensou "é agora, é a minha vez!", correu para ele, abraçou-o, empapou-se do sangue dele, tentou colocar-lhe a clavícula no lugar, beijou-lhe os restos de rosto ralados pelo asfalto, jurou celibato por ele. Acompanhou os esforços de ressuscitação na ambulância, mas nessa ninguém mais acreditava no Brasil do Futuro, que não era mais um país religioso, graças a deus, com minúscula, porque é só jeito de falar, afinal para sermos um país economicamente forte precisamos esquecer que o lucro é pecado e lucrarmos sem entraves de ordem moral. Daí a proibição de quaisquer práticas religiosas.

Macabéa, sob a mira das câmeras de tv, chorou compulsivamente quando Banzo jazeu-lhe morto nos braços, bradou contra a puta da ex-esposa, que tirara ao jogador a vontade de viver, velou 0 corpo daquele momento até a hora do enterro e, depois de duas semanas de luto, estreou um programa de fofocas sobre celebridades no canal do conglomerado de que fazia parte a revista semanal de variedades mais vendida do país .

5 comentários :

Anônimo disse...

dodério, o que te fez tão ateu? o bacalhau da sexta-feira da paixão não lhe estava a gosto? encontre jesus, meu filho, do contrário suas ações vão pro ralo e seu blog ficará às moscas. rafael.

Anônimo disse...

as ações a que me referi são as da bolsa, claro.

Rogério Duarte disse...

Lafayete:

"O poeta é um fingidor": o narrador dos contos é ateu; eu sou um rapaz muito religioso, de muita fé.

Hosana nas alturas!

Flavio disse...

Não entendi a relação do título com conto...ou na verdade eu entendi, porém eu esperava um diálogo diferente com o conto de Guimarães Rosa: espiritualidade e redenção. O que se percebe é o oposto.

E no final das contas, esta Macabéa virou estrela. Muito boa a referência a Clarice Lispector e a crítica a pseudo leitores.

Rogério Duarte disse...

Flávio:

Dizendo em poucas palavras, para manter o suposto "mistério" que parece ser necessário aos textos literários: no Brasil do Futuro, não haverá redenção. Só consagração por meio da lógica da fama.

Obrigado, sempre, pelas leituras atentas e comentários frequentes!