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segunda-feira, 20 de abril de 2009

O grande acontecimento 26 - Altílio e Lídea tiram dez

Banzo perdeu a vida porque queria ser amado; Macabéa virou estrela de tv num programa de fofocas: já se pode perceber que há momentos na realidade em que os fios do destino se encontram e os grandes acontecimentos ocorrem. O atropelamento de Banzo foi um desses - aquele instante também determinou a existência de Altílio, garoto que morava no prédio do ilustre, mas já agora jazente, jogador.

Altílio, aos oito anos, era o melhor aluno da Escolinha Tradição Infantil: tirava dez em todas as disciplinas; jogava bem qualquer esporte, de queimada a arremesso de peso; encantava todas as professoras com sua eloquência e sua maturidade, afinal ele já decidira que queria, quando completasse dezoito anos, ser tesoureiro de bancos de investimento. Impressionava os coleguinhas da sala, os pais deles, os professores e a própria família quando expunha as contradições das medidas de auxílio ao crédito e as crises sistêmicas do capitalismo financeiro.

Altílio havia escolhido a namorada segundo critérios que lhe favoreceriam a vida profissional futura:Lídea era menina que, embora menos carismática que Altílio, destacava-se entre os colegas, pelo brilhantismo nas aulas de biologia, disciplina que, no Brasil do Futuro, passara a ser ministrada desde a primeira série, como fomento à pesquisa científica. Era necessário estimular, diziam as empresas que investiam na iniciativa, a consciência crítica do cientista desde a mais tenra idade. Altílio via em Lídea uma futura esposa que teria seu próprio dinheiro, não dependeria dele; além disso, se ela fizesse alguma descoberta relevante, poderia trazer mais contatos para a lista telefônica de networking que ele guardava cuidadosamente no computador pessoal que levava consigo aonde quer que fosse.

No dia da morte de Banzo, Altílio brincava de Banco Imobiliário com Lídea, na entrada do prédio. Ambos ouviram o impacto do atropelamento, ambos correram à rua, ambos observaram friamente Macabéa, que se descabelava quase artificialmente. No meio da confusão, as duas crianças dirigiram-se ao corpo, que jazia no asfalto. Altílio, de olhos mortos, aproximou-se do corpo e pôs-lhe a mão no pulso, como se procurasse algum sinal de vida; Lídea percebeu que aquela era, também, sua hora e sua vez - e gritou a todos que ninguém deveria mexer no corpo, que o resgate fosse aguardado, caso contrário poderia haver comprometimento da espinha dorsal do acidentado. A multidão afastou-se e assistiu, indiferente, à tentativa inútil das duas crianças de ressuscitar o jogador.

No elevador, manchado de sangue, Altílio comentou com a namorada que aprendera primeiros socorros num curso que fizera no Corpo de Bombeiros - era bom para o currículo saber primeiros socorros. Melhor ainda era acumular atividades assistenciais e até heróicas, desde cedo, e um episódio como aquele certamente seria registrado na mídia, o que lhes daria destaque. Lídea sorriu e disse que percebera a intenção profissional do namorado, porque, ao tocar o corpo, notara que a vida já o havia abandonado - ela também fizera a massagem cardíaca com precisão, de modo a impressionar quem os via.

- Tudo que se faz no cotidiano nos abre mercado de trabalho, resmungou Altílio, que se arrependera por não ter feito uma massagem no corpo de Banzo. Contrariado, depois, ao perceber que, na tv, Lídea tivera mais destaque do que ele, Altílio terminou o primeiro e único relacionamento amoroso de sua vida, ciente de que não é possível amar quem disputa conosco as vagas no mercado de trabalho.

2 comentários :

Anônimo disse...

dodério, nada mais me interessa, somente estes textos. já nao como direito, já nao durmo em paz. só faço aguardar a minha hora e a minha vez, que tvz ocorra no momento de minha defesa de tese, qdo deverei sentar a mesa da banca examinadora e fazer aquilo que vc bem sabe, uma vez que alí não haverá bocal de telefone algum.

Rogério Duarte disse...

Ah, Anônimo, leitor fiel: deguste da sua hora e da sua vez, porque todos tem a sua.

A minha já foi: havia bocal de telefone em todos os lugares em que pisei e não gostei!