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segunda-feira, 27 de abril de 2009

O grande acontecimento 27 - O linchamento de Baleia

Baleia não era propriamente o nome da protagonista desta história, mas foi com essa alcunha que ela viveu seu grande momento, será com ela que o descobriremos. Já lá vamos. É preciso antes saber que Baleia também estudava na Escolinha Tradição Infantil, em que era colega de sala de Altílio e Lídea. Baleia era repetente - espécie rara no Brasil do Futuro, onde a educação alcançara qualidade tal que todos os alunos obtinham aprovação. Quase todos, na verdade: Baleia era o ponto fora da curva, a exceção, o imponderável que as estatísticas não podiam prever.

Pior: além de ser burra - tinha treze anos e ainda frequentava a classe dos pequenos -, Baleia era gorda para os padrões da época. Tinha um metro e sessenta e adiposos setenta quilos. Era, pois, um poço de banha, que os colegas vilipendiavam com furor insaciável. Entenda-se: no Brasil do Futuro, os gordos eram considerados um problema de saúde pública, já que o Estado se livrara de muitos gastos por meio de campanhas pelo consumo responsável de comida; proibia-se aos gordos que andassem na rua, de modo a evitar o mau exemplo aos saudáveis; "ninguém é gordo - escolhe-se ser gordo", dizia o adesivo colado aos carros da classe média. "Fora o excesso de peso!", era a máxima das propagandas de tv e das reportagens da revista semanal de variedades mais vendida do país.

Lá está, na hora do recreio, Baleia isolada, solitária. Sua repetência se devia ao trauma de ter afirmado ao professor de matemática financeira - ela tinha apenas oito anos! - que não havia juros que lhe pagassem o prazer de degustar uma raspadinha na praia, num fim de tarde - motivo de risinhos de mofa e origem do apelido pelo qual a conhecemos. Baleia escrevia versos secretamente e, em vez de ler a biografia de Jack Welch para crianças, leitura obrigatória da segunda série, deliciava-se com os poemas infantis de Fernando Pessoa.

Mas foi na aula de geografia econômica que Baleia experimentou o silêncio ameaçador dos colegas, o mal estar que precedeu sua hora e sua vez. Foi ali que afirmou que os recursos naturais estavam à beira do esgotamento e que esse desgaste era sintoma de uma lógica que ela não entendia bem, mas que fazia que todos a repetissem eternamente; Baleia afirmou, também, que, no mais, não via futuro na humanidade, que essa lógica incompreensível não apontava nenhum caminho. O professor não teve como rechaçar a afirmação e resignou-se a concordar com ela, o que, para a turma, soou como ofensa ao mestre e acinte aos colegas.

No intervalo, passaram uma rasteira na monstra, que teve a cabeça chutada tantas vezes pelos coleguinhas que vive hoje numa instituição para debilitados mentais - que, no mais, são como os gordos, porque escolheram a própria insanidade.

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