Total de visualizações de página

terça-feira, 19 de maio de 2009

A imagem do texto 2 - Solidão de dois minutos entre estações


Aquela filha-da-puta me tratou como um cachorro, ela não me ama mais. Como é que vou fazer agora pra trabalhar, sem ela me ligar no almoço e falar besteira, eu até bato punheta depois que a gente se fala. E vou trabalhar feliz, como se tivesse bebido, nada me interessa na empresa, os outros funcionários, cada um na sua baia, todos competindo, aquele tec-tec-tec estalado dos teclados de computador, todos querendo mostrar que trabalham mais do que os outros.

Eu não: depois que conversamos, é como se ela me desse paz, assim, para não me importar com nada do que está ao meu redor, ela me envolve com as palavras, do mesmo jeito que faz com as pernas, quando a gente se vê. E eu gosto tanto dela que é como se não houvesse outras pessoas no mundo, só eu e ela, só eu e ela, só eu e ela. Ninguém sabe que eu amo essa mulher. E agora essa filha-da-puta vai me largar, a gente brigou, eu sabia que não podia nem falar de morar junto com ela, esse seria o motivo da nossa separação, mas eu não podia ficar sem ela durante a semana e falei, foda-se, se ela me ama, ela vai ficar comigo.

Ela esbravejou, e me botou pra fora, e são cinco para meia noite: atravesso a catraca e entro no último vagão, do último metrô que vai sair da estação hoje. E para meu desespero e êxtase, não tem ninguém, pelo menos até a próxima estação, e agora eu posso fazer o que quiser aqui, posso bater uma punheta para imaginar que ela está comigo, posso escrever nas paredes que a odeio, porque talvez ela pegue este mesmo vagão amanhã, posso escrever que ela é um puta, uma piranha, e colocar o nome e o telefone dela pra todo mundo ver, porque o que eu não ganho eu leso, posso chorar alto, e gritar o nome dela, e quebrar a alavanca de emergência e quando vierem me buscar posso gritar o nome dela, mais uma vez, agora a todos, para que liguem para ela, e ela virá me buscar, posso quebrar o vidro do metrô e me jogar entre o trem e a linha, posso até morrer, se der sorte, mas, se ficar vivo, ela terá de viver com essa culpa na cabeça, e eu terei vencido, ela terá minha imagem na cabeça por toda a vida.

Próxima estação: Clínicas. E recuperei a sanidade, de medo que aquela gente toda que entrava no meu vagão descobrisse o quanto eu amava aquela mulher.

Foto de Ezyê Moleda, no endereço: http://agoramomentoinstantepresente.blogspot.com/2007/05/meiodelocomoosubterrneo.html

4 comentários :

(Ju) disse...

Ahhhh... não vem me dizer q nunca se sentiu assim de verdade! Eu não vou acreditar, viu?! rs
Repetindo: adoro falar de amor, até quando é trágico assim!

HBMS disse...

que lindo *-*
'são demais os perigos dessa vida pra quem tem paixão'

Rogério Duarte disse...

Só está vivo quem se apaixona ou ama.

Lena disse...

"E recuperei a sanidade, de medo..."
Lindo jeito de contar as delícias e as dores de amar.