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sexta-feira, 29 de maio de 2009

A Imagem do Texto 3 - Rubor


Esta é a minha noite, por isso, no banho, massageio os cabelos com xampu, suavemente, depois deixo agir, depois espalho o condicionador e deixo agir ainda mais, ainda eu vou agir hoje à noite, esta é a minha noite. E o sabonete corre suave por mim, e deixa o cheiro pelo corpo, que toma o banheiro, que toma a casa: é a primeira noite que ele vem aqui, e tudo precisa recender a acolhimento, esta minha casa será nosso lugar, ninguém veio nunca aqui; depois que cheguei a São Paulo, mão atrás, outra na frente - e estudar sem conhecer ninguém, e morar nas pensões, que não eram lares, e ouvir as músicas no fone de ouvido, as músicas eram meu espaço - depois que cheguei a esta cidade a pele ressecou, a unha ganhou um amarelado desgastado, recurvou-se, como se eu fumasse um cigarro enorme, cuja fumaça fosse deterioriando-me o corpo, depois amortecendo-o, depois anulando-o, emagrecendo-me os desejos, a unha sem corte e esmalte, a sobrancelha engrossava, ressurgiam as espinhas da adolescência, mas sem o rubor de antes (eu era toda rubor quando menina), a pele morta debaixo dos braços, de tanto raspar, e todos os pêlos que cresciam, e vestir mais roupa para escondê-los, ainda bem que em São Paulo faz frio nessa época, senão todos achariam que sou a Cláudia Ohana, enfim a cidade e o trabalho deixaram-me a madre seca, assexuada, eu que era toda rubor quando menina.


Mas hoje tirei as sobrancelhas, e fiz as unhas da mão, e depilei-me, e fiz as unhas do pé, e pintei-as de vermelho, porque ele disse que se apaixonou pelo meu pé antes mesmo de me ver o rosto, nem sei como, que meu pé estava mal cuidado, ele deve ser meio pervertido e, eu nem lembrava, mas é assim mesmo que eu gosto, com um fetiche. E o apartamento que aluguei faz dois meses tomou vida, eu trouxe flores, e tomei banho, e acendi o incenso, e em toda a casa se evola o bálsamo de que ele precisa, e o eflúvio que sai do banheiro dá à casa a umidade gostosa do verão (nem parece São Paulo). E perfumo tudo, as mangas da cozinha trago para a sala, e abro a porta do banheiro, e a fragrância do sabonete se espalha pela casa, a essência é de bogari, de tamarindo, o creme suave que passei na pele é de caju, e a casa toda bafeja e inspira a minha expectativa, também eu parece que ganhei vida. E já deixei pronto o jantar, da cozinha emana o aroma da carne que ele gosta, e o vinho tinto que vai bem com ela. No forno, aqueço o pão feito com a receita da minha terra, cujo cheiro se espalha pelo prédio todo.


Campainha. É ele, vejo pelo olho mágico, é ele cheio de rosas vermelhas nas mão. Me abrançando, ainda sinto o odor das rosas, ele roça o nariz no meu pescoço e diz, as mãos fechadas perto da minha bunda, Que cheiro bom, gostosa.


* * *


O dia vai nascer, ele já dormiu faz um tempo mas estou ainda desperta, e vou à janela, abro-a e deixo São Paulo se contaminar dos odores da minha casa, agora não só adocicados, mas com um travo gostoso e forte que me toma os pulmões, ainda há pouco gritei alto, mas ainda a cidade não acordou, agora acorda, a esses odores todos ninguém resiste, nem São Paulo. Observo a cidade tomada agora das fragrâncias que saíram de mim, que eu produzi, que eu criei; de relance, ao fundo, observo o que talvez seja uma explosão sem som, talvez uma outra como eu tenha ateado fogo à casa, não é isso, não é incêndio, não é explosão, mas sobe rasgando as árvores, como se as deflorasse, como se fosse explosão, mas sem som, movimento só, agora calor, e luz, muita luz, amarelo, vermelho, mais vermelho: já vai nascendo o dia novo, todo rubor.

3 comentários :

Anônimo disse...

Olá, olha eu aqui outra vez! rsrs!
Falando Sério...
Esse seu texto me emocionou...
Adorei! ^^

Beijo

Dé ^^

Ezyê Moleda - fotógrafa disse...

muito tocante

★ Noemi Melo ☆ ☾ ☆ disse...

Excelente!!