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segunda-feira, 4 de maio de 2009

O grande acontecimento 28 - A falta de asseio de Parauacu

Baleia sofreu, é fato, mas não vá o leitor ter pena dela; a sociedade brasileira futura não pode tolerar exceções ou párias. "Uma sociedade limpa se constrói como o asseio no Metrô de São Paulo" dizia a propaganda do governo; "Tolerância zero". Esta foi a política que, entre outras medidas, trouxe a paz e a limpeza aos paulistas e paulistanos.

Deus esteja com eles e conosco, mantenhamo-nos sempre limpos, a fim de evitar algum engano: não vá o leitor deixar de tomar banho um dia, porque pode ser considerado um mendigo, pelo cheiro, e acabar na Casa Verde - nome que recebeu a instituição que abrigava loucos como Baleia. Escovem-se os dentes, faça-se a barba, as mulheres depilem os sovacos, os homens mantenham-se depilados nas costas. Tanta limpeza, que do corpo contamina o espírito, que alguns estrangeiros passaram a crer que o Brasil era uma espécie de Meca da purificação.

Deixemos de elogios ao Brasil: observemos Parauacu, rapaz jovem, de longas madeixas, que agora deixa escorrer no chão do pátio da Casa Verde uma baba densa, que enoja quem por ali passa, seja louco ou não, que a medicina da cabeça também tem lapsos. Os braços estão forrados de pêlos, os cabelos, já o dissemos, são longos, as pernas são o mesmo que os braços e o resto do corpo.

O leitor terá estranhado o nome da personagem; ele próprio explicava, quando estava são, que era filhos de pais ripongas, e que o nome que tinha deveria ter algum significado que desconhecia. Parauacu fugia aos hábitos dos pais: depilava-se inteiro, a fim de conquistar as meninas mais bonitas da escola. Mas eis que um dia - exatamente o dia que em combinara com uma coleguinha o roubar-lhe um beijo no banheiro feminino - esqueceu-se de fazer a barba que, como o leitor pode imaginar, era fechada como a selva amazônica.

O resultado foi que os pequenos pêlos que apenas cresciam no rosto de Paruacu machucaram os lábios e o rosto da moça; embora ela tivesse se excitado com o raspar de barba no rosto, seus pais pediram a prisão de Paruacu, sob a justificativa de que, além de ter forçado a moça a beijá-lo, o rapaz era sujo - e não merecia conviver entre os asseados brasileiros.

O grande momento da vida de Paruacu ocorreu um pouco antes de sua primeira dose de eletrochoques combinados a tranquilizantes - Paruacu observou os cabelos que cresciam, os pêlos bastos do rosto e do peito, e sentiu-se imundo como um homem qualquer.

2 comentários :

Samuel Fujiwara disse...

Meu, acho que conheço ao menos meia dúzia de Paruacus...!!!

Rogério Duarte disse...

Talvez eu seja Parauacu!