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segunda-feira, 11 de maio de 2009

O grande acontecimento 29 - A organização secreta e a decepção de Libério

Parauacu e todos os internos da Casa Verde jamais poderiam imaginar que seriam libertados de uma hora para outra: tudo responsabilidade de um dos enfermeiros, Libério, participante de uma organização secreta que, em reuniões secretas, planejava ações contra o que seus integrantes julgavam ser, no Brasil do Futuro, instituições que tolhiam a liberdade aos homens.

Nas escolas, os integrantes da organização infiltravam-se como professores e, em vez de ensinar os cânones aos alunos, liam com eles poetas contemporâneos; nas empresas em que trabalhavam, entravam pontualmente às oito e saíam às cinco, sem trabalhar um minuto a mais, para evitar a exploração.

É evidente que ações como essas foram vistas pela revista semanal de variedades mais vendida do país como absurdos. Entenda bem o leitor: as empresas em que trabalhamos nos dão sustento e trabalho, por meio dos quais alcançamos bens e realização pessoal. Empresas são amigas, não inimigas, entendido está: vistamos a camisa. Deus proteja os redatores, os editores e os acionistas da revista, que, com essa postura, faz que o Brasil se modernize cada vez mais e que a lógica do trabalho, em detrimento da preguiça, predomine em nosso país.

Perceba também o leitor que a subversão não anda à solta, com hordas violentas de pessoas lutando por melhores salários ou direitos nas ruas: essa gente já saiu de cena, a história acabou, não há mais ideologias ou partidos. O Brasil vive o período do consenso, sem diferenças que acentuem os conflitos. Não se vá dizer que há populações nas periferias que não participam do modo brasileiro de viver e sonhar; não se vá dizer agora que os habitantes da Casa Verde estavam à margem da vida e do sonho, porque pensavam diferente.

Mas que se há de fazer se há sempre uns revolucionários, barulhentos e do contra? Lá agora está Libério abrindo aos confinados da Casa Verde o caminho rumo à liberdade. Os outros funcionários não fazem nada, porque temem os detentos. Ali vai correndo o poeta, que cuspia longe os remédios que lhe davam e que sabia onde estava e o que fazia ali; atrás dele vai a faxineira, porque se sentia tão presa àquele lugar quanto os detentos, ela que nunca tomou sequer um tarja preta; em seguida corre um jornalista que resolveu contar a verdade sobre o tráfico de menores para Brasília; manquitolando, logo depois, passa um jogador de futebol que foi incentivado pela direção do clube a consumir drogas para desenvolvimento muscular e que, ao perder parcialmente o movimento das pernas, escreveu um livro contra os cartolas. E depois de todos eles, corre um louco, que loucos também os há - nem no Brasil do Futuro eles podem ser entendidos.

A maioria dos loucos, entretanto, não se move. Libério insufla-os à fuga, discursa, empurra alguns na direção do portão, mas eles correm desesperados para seus quartos. Libério agora chora, insiste, tenta dar o exemplo, ele mesmo saltando com os dois pés para fora e para dentro, argumentando que, se quisesse poderia ir e vir. Mas cada um dos loucos mantinha-se em silêncio, olhando as próprias mãos, movimentando objetos preciosos e escondidos dentro dos bolsos, dialogando com o vazio, dizendo impropérios para o céu, escrevendo num caderno qualquer ou nas paredes. Libério implora a todos que saiam, que as autoridades estavam para chegar e vê, atrás de si, o portão ser fechado calmamente por alguns policiais, enquanto seus antigos colegas de trabalho, agora seus enfermeiros, dirigiam-se a ele com as injeções que lhe aplicariam.

Um comentário :

Flavio disse...

Animais sabem instintivamente o seu habitat.
Se os loucos no Brasil do Futuro são considerados animais, nada mais natural que desejem ficar na Casa Verde (que, diga-se de passagem, é um nome não muito criativo mas que cai como uma luva).