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segunda-feira, 18 de maio de 2009

O grande acontecimento 30 - Nasce o poeta

Já vimos correr o poeta, em fuga da Casa Verde. Não vá achar o leitor que esse evento é o grande acontecimento da vida dele. Não é. Há pessoas que vivem tanto e tão intensamente que experimentam até mais de um momento significativo em vida. Tudo é questão de ponto de vista: haverá poetas cujos olhos são tão encantados com o que veem que dirão que cada dia vivido é uma maravilha que a vida lhes dá (vivam eles grandemente ou não, na perspectiva de quem está de fora).

Pois este poeta que agora parte correndo da Casa Verde, rumo à casa da ex-esposa que, ao contrário de todas as expectativas, lhe dará abrigo, comida e uma folha de papel para escrever, este poeta que conseguirá publicar mais do que um livro em uma grande editora depois da internação, este poeta afirmará, no dia em que receber um prêmio literário, oferecido pelo Ministério da Educação, que o grande momento de sua vida ocorreu aos sete anos, quando percebeu que servia de sustento a toda a família.

O poeta nascera menino fraco, seco, destinado à morte, numa família que morava no túnel de acesso à Radial Leste, na Praça Roosevelt; ali nascera, ali começara a carreira de angariador de esmolas para os familiares. Criança mirrada que era, sensibilizava o público frequentador da praça, à cata de espetáculos alternativos de teatro e de música. Era uma forma de atuar socialmente, pensavam os que davam moedas aos pais do futuro poeta. E ele chorava sonoramente, como que pedindo e agradecendo ao mesmo tempo àqueles que contribuíam com o sustento da família.

A lógica da concorrência, entretanto, fez que um medigo solitário da mesma praça percebesse que sua barba longa, seus olhos vermelhos de cachaça, suas roupas sujas, de um cheiro acre de mijo, de asfalto e de jornal, não tinham o mesmo efeito que o choro insistente do futuro poeta. Roubou-o, uma noite, da família, e carregava-o pelos faróis, de modo a conseguir alguns trocos pela cidade, bem longe da praça, para não ser encontrado pelo pai que supunha enfurecido por perder a principal fonte de sustento. E o futuro poeta cumpria facilmente seu papel, chorando alto nos braços do mendigo, arrancando aos motoristas de carros importados um bom dinheiro.

Assim foi, até que um policial tomou a criança ao mendigo, que chorava como criança ao perder a guarda do garoto. Com menos de um ano de idade, o futuro poeta mudava de emprego pela terceira vez: era adotado, agora, por uma família de artistas de circo, que percebiam na criança o potencial artístico de que precisavam. E assim foi, até que o futuro poeta, aos sete anos, seria a atração principal do circo, passando, no final do espetáculo, para a comoção da platéia, o chapéu, para que o público contribuísse com o trabalho da trupe.

6 comentários :

Samuel Fujiwara disse...

Vou ficar digerindo este poeta aí... Ele foi ao circo, mas mesmo assim é triste?

abs!

Rogério Duarte disse...

Ele foi ao circo ou ele é o circo? Pão (para ele), circo (para o público)?

Abraço!

Simone disse...

Não sei se me comovo ou se acho divertido. Tenho as duas sensações.
Acho que vou andar de bicicleta! ;)

Rogério Duarte disse...

Também não sei o que sentir, Simone!

Beijo!

Anônimo disse...

Pra mim, ele é o Circo!
hehehe!
Beijo!

Dé ^^

Rogério Duarte disse...

Dé: boa hipótese!

Beijo!