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segunda-feira, 25 de maio de 2009

O grande acontecimento 31 - Égide dorme solitária

O leitor há de ter perguntado a si mesmo por que é que a ex-esposa do poeta o abrigou com tanta facilidade, ele que estava internado na Casa Verde e poderia ser ameaça à integridade física dela - ela se chamava Égide, a ex-esposa, não a casa, que já se entendeu ser verde; essa coisa de ficarem as personagens sem nome só confunde e generaliza.

Égide tornara-se ex-esposa do poeta depois de tentar, inúmeras vezes, protegê-lo de si mesmo: ela sabia que ele acabaria na Casa Verde. Égide não chegava a questionar o funcionamento do Brasil do Futuro, mas sabia muito bem que o país jamais admitiria uma alma livre e anárquica, como a do poeta, à solta, sem freios - desenvolvimento econômico exige limites nas asas da criatividade, que devem voar apenas à altura e no sentido do empreendedorismo, era o que dizia a pesquisa psiquiátrica publicada na revista semanal de variedades mais vendida do país.

Ah, mas que gosto viver com o Poeta, seus devaneios e observá-lo criar inspirado nas coxas dela; Égide o recebia, tarde da noite, depois das bebedeiras na Rua Augusta, em que ele fazia o périplo dos bares cheios de outros poetas, nenhum tão livre quanto ele, que não tinha nada a perder. E ela adorava abrir-lhe a porta, tarde da noite, para treparem como animais, fazerem todas as sujeiras, darem asas a todos os fetiches, dizerem todas as sacanagens. E finalmente, esgotado, ele dormia como criança, completamente nu, úmido de suor e de líquidos dela misturados aos dele, e ressonava como criança.

Mas Égide sabia que aquela liberdade toda acabaria por levar o Poeta à Casa Verde - ele que já vinha causando polêmicas nos jornais virtuais de poesia, por não associar-se a nenhum movimento estético, por criticar todos os que existiam, porque tolhiam aos escritores o potencial criativo. E assim é, sabia-o Égide: o que as pessoas não entendem tende a ser destruído por elas. O poeta foi acusado de louco, e Égide, prenhe de razão, não lhe deu guarida quando as perseguições começaram, porque sabia que ao poeta era impossível calar-se. Veio a internação. E o grande momento da vida de Égide foi a noite em que dormiu solitária, aflita, imaginando que o poeta voltaria um dia a sua cama, mais amargo, é verdade, mas também mais maduro.

2 comentários :

Flavio disse...

Acho que vc leva muito ao pé da letra essa coisa de transformar qualidades em substantivos próprios.

O pai da ex-esposa do poeta seria Hefesto?

Rogério Duarte disse...

Hahaha! Não levo a sério não: é só um laboratório, um teste.

E sim, o pai dela seria Hefesto!