Total de visualizações de página

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A imagem do Texto 05 - Do lixo viemos, ao lixo voltaremos

Texto inspirado na inspiração infinita dos poetas Pedro Pracchia e Fábio Cardelli (este texto, de certa forma, é mais deles do que meu), e na sensibilidade da fotógrafa Ezyê Moleda. A foto é dela, em: http://agoramomentoinstantepresente.blogspot.com/2009/05/alguns-olhares-de-um-final-de-semana.html

Minha pilha de papéis de pão. Antigos telefones vermelhos de orelhão. Meios-brinquedos, agora assombrados dos adultos que os abandonaram. Restos velhos de anotações fragmentárias de aulas que se perderam no tempo, mortos já os professores, perdidos os alunos nos escritórios da cidade. O cheiro do ralo: no lixo pode-se achar de tudo. A última página deste caderno, que encontrei quase inteiramente em branco. Rol de porcarias que encontrei fuçando nas lixeiras da cidade.

Começou assim: chutei sem querer um lixo na Rua Barra Funda, voou um caderno de anotações novinho: Vou usar este caderno que encontrei, ele serve direitinho para escrever os poemas que eu tenho lá em casa. E passei a procurar, em outras lixeiras do bairro, outros objetos, para que eu pudesse me prevenir das intempéries da vida, eu poeta sem utilidade prática na realidade concreta.

Não me foi fácil. Diziam: é poeta, vá lá, é charmoso ter poeta aqui no bairro, a gente comenta no jantar com os amigos e todos dizem, Oh, eles moram em bairro de poetas; mas agora recolhe lixo das ruas? é poeta ou é lixeiro? é escritor ou é mendigo? E as mães de família, e os pais de família, e a diretora da escola, e o padre da igreja, todas essas pessoas respeitáveis da região batiam à minha porta e perguntavam se eu estava bem, se precisava de alguma coisa, e tentavam olhar para dentro de minha casa e viam o lixo que já se acumulava em minha sala. E eu sorria do desespero deles, porque o meu lixo era pouco, se comparado ao deles. E eu conhecia bem cada um, graças aos vestígios de vida que deixavam em seus lixos: já recolhera as fotos secretas do amante da mãe de família; já encontrara as langerris sujas que o pai de família usava às sextas à noite; lera excitado e me masturbara com as cartas picantes que a diretora da escola trocava com o aluno da oitava série; rira à larga com as cartas que o padre trocava com o mesmo aluno, este o único íntegro de todos, porque só fazia 0 que bem entendia, sem importar-se com o que pensariam os outros. O lixo que ele me legava, aliás, era diferente: o garoto participava de movimentos para a reciclagem.

O cheiro de minha casa era forte, mas não era insuportável: eu havia descoberto um processo alquímico que não conto, é meu segredo. Meus vizinhos também são alquimistas, mas não sabem. Explico de um jeito que só eu entendo: eles compram o objeto, usam, e como que por encanto, num gesto, dão-lhe o nome, quando a utilidade acaba: é lixo. E eu pego esse mesmo objeto, levo para minha casa e o transformo, num passe mágico de palavra, em outra coisa. Eu trato o lixo, faço-lhe carinhos, afago-o, eu ouço o lixo com atenção, observo-o atenciosamente e ele ganha vida.

À noite, em minha casa, a festa é animada e macabra: a cabeça arrancada de um brinquedo de piloto de corrida assume a forma de Virgulino Ferreira, e Lampião declama poemas de Literatura de Cordel, para frangalhos de Barbies, até o amanhecer; o telefone antigo, de olhos arregalados, enuncia conversas, há muito perdidas, jamais escutadas, entre escritores modernistas. E eu anoto tudo na última página deste caderno, que encontrei quase inteiramente em branco, a vida que têm as porcarias que encontrei fuçando nas lixeiras da cidade.

4 comentários :

Humberto disse...

uau, professor! que texto incrível

"agora assombrados dos adultos que os abandonaram"

...

Rogério Duarte disse...

Obrigado, Humberto!

E vem mais lixo por aí...

Ezyê Moleda - fotógrafa disse...

que venha!

Anônimo disse...

Nossa Profº... Muito Bom!!
Faz tempo que eu não leio seus textos...Hoje, resolvi dar uma olhada... ^^
"Eu poeta sem utilidade prática concreta..." - Essa frase ficou demais!!
Ótimo texto!!!Parabéns!!
Bjs
Dé >..<