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sexta-feira, 5 de junho de 2009

A Imagem do Texto 4 - A ilha


Não havia nada naquela ilha. Cogitava-se, do continente, se poderia existir, ali, alguma fonte de água potável. Da praia, turistas observavam a porção de terra misteriosa, virgem, distante, mas que deixava sempre a impressão de que poderia ser alcançada a nado, com os próprios braços. Os barqueiros não se arriscavam: a costa da ilha era perigosa, muita gente morrera ali, a ilha talvez fosse maldita. Ou talvez escolhesse quem poderia visitá-la.

Já mais de um empresário tentara usar a ilha: fazer um bar na praia cuja areia, em dias de sol, podia ser vista do continente. Mas a ilha não deixava - era o que diziam os pescadores da região. Houve até um empreendedor, mais ousado, que chegou a enfrentá-la e a atracar-lhe no lado oposto, voltado para o alto-mar, perigoso, agitado. Mas o homem tinha desaparecido no trajeto pela terra.

E o povo contava histórias de Chupa-Cabras, seres alienígenas que ali moravam, aguardando o resgate dos seus, que um dia voltariam para buscar aqueles acidentados que haviam perdido o disco-voador num acidente. À noite, fora da temporada, houve quem visse luzes na ilha: fogueiras de festas deles.

Cheguei à ilha, a nado, em 21 de março - era o início do outono, lembro-me bem. Desde a adolescência, quando minha família frequentava a praia do cotinente, eu tinha me informado a respeito das correntezas com os pescadores; aos vinte e oito anos, depois de uma vida vazia de relacionamentos amorosos em nome de uma carreira meteórica, que acabara tão brevemente como começara, tive uma crise de síndrome do pânico que me trancou em casa por sete meses - e que me obrigou a reconciliar-me com meus pais, com quem eu não falava desde a formatura da faculdade.

O primeiro passo para vencer o pânico foi ir à piscina do condomínio e nadar, nadar, nadar até os pulmões queimarem. Na saída da piscina, meus pais abraçavam-me como se nada tivesse acontecido no passado, cuidavam de mim, que, com o olhar vazio, observava todo o dinheiro que eu ganhara ir pelo ralo, com médicos e remédios. À noite, depois de nadar, eu dormia sempre tranquilo, até sonhar com a ilha que tanto encantara a minha infância; e propus-me: Vou nadar até lá.

Calculei a distância do continente à ilha, informei-me sobre as correntezas e consegui começar a sair de casa, preparando-me para ir à ilha. Não me interessava o que eu faria lá; talvez, apenas chegasse, tomasse de volta o caminho do continente. O que interessava era a viagem. Meus pais ralharam comigo, disseram que iriam de barco, acompanhando-me; alertei-os de que, além de a costa da ilha ser perigosa, aquilo era algo que eu precisava fazer sozinho - o que eles compreenderam prontamente, deixando-me partir, não sem dor no coração, mas com a fé que eu jamais tivera.

No dia 21 de março, às sete da manhã, parti para a ilha a nado, e lá cheguei às quatorze horas, exatamente. Na praia, abrigadas pela sombra das árvores e de um marco, em forma de cruz, que devia remontar a tempos remotos, havia seis pessoas mergulhadas no mais completo silêncio. Quando saí da água, exausto, uma delas, a minha companheira disse, Vem. E eu fui.

Um comentário :

Ezyê Moleda - fotógrafa disse...

Virou uma viagem incrível essa foto hein?
adorei o texto!!!
quero o livro!