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segunda-feira, 8 de junho de 2009

O grande acontecimento 32 - Thomas Noccus desdenha colher a coisa oferta

Para o Rafa, que faz rir ao explicar o fetiche da mercadoria

Toda época tem seu pensador. Thomas Noccus era amigo do Poeta e de Égide, frequentava-lhes a casa e explicava as coisas do mundo. Quando planejava a tese de doutorado, em meio a uma bebedeira, foi desafiado pelo casal a explicar a Máquina de Lavar Alma.

- Eu duvido, duvido!, que você consiga explicar os efeitos da Máquina de Lavar Alma.

O desafio era uma piada antiga: o casal já desafiara Thomas Noccus a incluir a expressão "pipoca não tem antena" no texto do mestrado - proposta que o filósofo e sociólogo levara adiante. Nenhum dos três jamais poderia experimentar as maravilhas da Máquina de Lavar Alma, cara demais para comprar ou alugar.

Mas Thomas era insistente: apresentou o projeto à instituição de pesquisa, foi aprovado e iniciou o trabalho. No Brasil do Futuro, a empresa de Meciê Robot, que detinha a patente da Máquina, dispôs-se a bancar parte da bolsa do estudioso, que comprou cerveja, picanha e sorvete de chocolate para os amigos. A revista semanal de variedades mais vendida do país noticiou o estudo, anunciando-o como um avanço no incentivo privado à pesquisa.

O que chocou a todos, primeiramente, foi que Noccus negou-se a redigir o trabalho usufruindo das maravilhas da Máquina: isso poderia comprometer-lhe as hipóteses, era o argumento que ele apresentava, encarado como excentricidade. Depois de quatro anos de trabalho exaustivo, o pesquisador, já próximo da defesa, foi chamado por Meciê Robot para testar a nova maravilha do mundo.
A imprensa estava toda no Centro de Eventos da Empresa, disposta a cobrir o encontro da intelectualidade com o entretenimento. Frente a frente com a Máquina, Noccus declarou:

- Não entro. Não uso nem fodendo isso aí. Enlouqueceram?

Um frêmito assolou a sala. Não entra? É disparate. É capricho acadêmico. Como não entra? E eu faço o que com o texto que já escrevi para a revista semanal de variedades mais vendida do país? E a entrevista que eu já escrevi sem conversar com o senhor, em que o senhor elogia os efeitos da Máquina? Não entra por quê?

- Não entro, porque desdenho colher a coisa oferta que se abre gratuita a meu engenho. Me disseram que se eu entrar nessa merda não saio mais. Tô fora.

Meciê Robot, irritadíssimo, berrou que assim não podia, que não era certo, que a empresa queria o dinheiro de volta. Ao que Noccus respondeu:

- Ora, vá tomar no cu.
Ao fundo, ouviu-se o estampido seco de uma motocicleta, vindo da rua.

Thomas Noccus foi aprovado com ressalvas. Perdia a nota, mas não perdia a piada.

6 comentários :

Linamarina disse...

...isso poderia comprometer-lhe as hipóteses, era o argumento que ele apresentava,...

E quem irá dizer que este lhe é superior rsrs

Rogério Duarte disse...

Hahahah! Faltou, ainda, lembrar que a piada é superior!

Flavio disse...

Historinha safada!
Cheia de referencias aos continhos antigos!

E ainda por cima referencia a maquina do mundo. Engraçado como pecinhas tão distintas se encaixam de maneira tão perfeita.

Rogério Duarte disse...

Flávio:

Essa safadeza é o que sou. Isso porque não somos amigos amigos há 20 anos; se fôssemos, você veria que essa história não tem nada de meu...

Simone disse...

"Thomas Noccus"??? Com um nome desses, o cara só pode ter sido um grande pensador...

rafa disse...

dodério, esse texto merece o nobel.
morro de rir.
salvou minha noite amarga de trabalho.
abraço