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terça-feira, 28 de julho de 2009

A Imagem do Texto 06 - O rio e a cidade



Trinta graus - em pleno inverno. Não dá mais pra viver nessa cidade, que se foda tudo, eu vou morar na praia. Abandono família, deixo contato para os amigos, fujo das contas pra pagar, sumo no mundo. Trinta graus, em pleno inverno, não dá. A cidade acabou. Pra mim, acabou.

Essa cidade não tem uma puta de uma beleza natural. O Ibirapuera - ela fala sempre, a moça do Rh, vá ao Ibirapuera aos domingos, para relaxar. Mas aí tem as merdas de cachorro na grama, um monte de gente, as crianças dando de comer pros patos, os patos, os violeiros, os ciclistas, os farofeiros - não tem a paz da praia, como se a cidade transformasse aquelas árvores, aquele lago. Tudo já artificial, a mão do homem está por trás de tudo - o que as pessoas levam para o parque é a cidade.

A moça do RH não vai entender nunca o que eu estou pensando, mas é verdade: as pessoas levam a cidade pro parque. Isso é o que fode tudo. Mas ela insiste em sugerir visitas ao parque. E eu vou, mas vou com a cidade nas costas.

Mais um café. Pra quê um café, se está mais de trinta graus, em pleno inverno? Mais um café. É a cidade que fica me dizendo pra tomar mais um golinho, e acorda, e produz mais, e rende mais, e mais um golinho.

O que eu queria mesmo era morar na praia.

Então eu saio do escritório sem avisar - ninguém é insubstituível, é o que a moça do RH vive me dizendo, então ela que me substitua hoje à tarde, que eu não aguento mais. Eu preciso sair da cidade, pisar o freio e a grama, aceitar o curso natural da vida - chega de querer fazer tudo, rico eu nunca vou ficar mesmo, porque não sou proativo, é o que a moça do RH vive me dizendo. Então chega: se esse é o topo da minha carreira, agora eu vou ver a vida passar, sem preocupação. Eu preciso é sair da cidade.

Vou até o carro para pegar minhas chinelas de praia, elas não saem do porta-malas. E até que fica engraçado andar de terno, gravata desafrouxada, calça social e chinelas pela marginal, que se foda, eu preciso caminhar. Atravesso a marginal arriscadamente, feito louco, e alcanço o rio. A moça do RH me encaminharia para o tratamento psiquiátrico, mas nunca me vi tão são quanto agora, caminho ao lado do rio fétido, mas é ainda um rio, foi violado pelos homens, tomou o curso da cidade, mas é ainda um rio. Eu levo a natureza ao rio.

Me arrisco de novo, atravesso a marginal, subo a ponte. Apesar das grades laterais da ponte, do barulho dos carros, do cheiro acre dos dejetos e da fumaça de escapamento, dos fios que cortam o sol ao meio - apesar de tudo isso, eu levo a natureza ao rio, e a cidade fica para trás.

Foto de Ezyê Moleda em http://agoramomentoinstantepresente.blogspot.com/2009/05/alguns-olhares-de-um-final-de-semana.html

2 comentários :

Ezyê Moleda - fotógrafa disse...

Esse conto reverberou muito dentro de mim!
Parabéns Rogério, pela sua arte!!

Rogério Duarte disse...

A arte é sua, Ezyê. Eu só conto o que já está nela.