Total de visualizações de página

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O grande acontecimento 33 - Tempestade de homem

Mesmo os grandes acontecimentos escasseiam depois de algum tempo. Acontecem fora do tempo, porque se delineiam no passado, repercutindo antes mesmo de ocorrerem, ecoando ainda pelo futuro, até que sejam superados por outros mais significativos, reverberando eles todos nas vidas dos homens que os experimentaram e também nas dos que só ouviram falar deles. Não há tempo presente nos grandes acontecimentos.

Thomas Noccus desdenhou colher o que lhe fora oferto. Coisa de família, disse a mãe, quando viu o furdúncio que o filho aprontara. É que o avô dela, Carlos Christian, já marcara as existências da família e de outras pessoas com trovoadas: tempestade de homem, apesar do nome de cantor romântico.

Carlos era, antes de tudo, um forte. Já na Escolinha Tradição Infantil, destacara-se por estapear um amiguinho mal-educado, Onejar, porque este arrotara-lhe na orelha; Carlos também fora surpreendido, no banheiro, bolinando Gisele, a irmã do mesmo Onejar. Fora a vingança definitiva.

Até os pais temiam Carlos, que não temia nada. Suas escolhas foram sempre feitas de acordo com sua própria vontade; nenhuma influência externa podia demovê-lo das convicções que adquirira sabe-se lá onde; seus argumentos iam de Aristóteles e Yumbad Bagun Parral, sem pestanejar, com a facilidade dos que nasceram para todas as batalhas, sobretudo as de ordem intelectual. Nunca lhe interessaram meninos ou meninas, até que, num debate político, já na faculdade, conheceu Rita.

Descalça, prescindindo das formalidades que o grupo de estudos costumava adotar nas longas discussões políticas, Rita argumentou livremente, mas Carlos não lhe ouviu as palavras: corria os olhos pelo corpo dela. Fazia calor - Rita trajava um vestido curto e, sentada numa carteira velha, tinha as pernas cruzadas, os ombros, os braços, os joelhos e os pés à mostra, com os seios sugeridos nos contornos leves do tecido macio. Carlos perdera a razão e não sabia que dizer - alumbramento de menino que se faz homem, num jorro.

E o leitor se enganará caso suponha que foi este o grande momento da vida de Carlos. Rita também observou-o, desejosa, naquela tarde. Mas não era ela toda tempestade, como ele. A moça já conhecia os mistérios - e levou-o para conversar, mas ela mais falou do que ouviu. E já na cama, naquela mesma noite, Carlos percebeu a maravilha de ficar calado.

2 comentários :

Márcia Vitor disse...

Gostei. Ah Rogério! Você e esses nomes de escolas infantis...

Rogério Duarte disse...

Hehehehe! É a Escolinha Tradição Infantil, pô! Conhecidíssima e recomendada pelas melhores famílias de São Paulo!