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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A Imagem do Texto 07 - Jorro

Eu quero meu banho com minha jarra de prata, mesmo que demore mais, ouviu bem? Você deve achar que eu sempre fui assim velho, com essas roupas folgadas e puídas, como se eu estivesse de pijama o dia inteiro. Mas não é verdade. Eu também tive o meu tempo, época de esbanjar dinheiro, de ficar despreocupado de tudo, sem imaginar que a senilidade pode atingir qualquer um. A gente sabe que ficou velho quando começa a ter medo.

Eu não nasci em berço esplêndido, meu filho. Sempre fui bonito, assim forte como você, me vestia bem, mas nunca tive nada de mão beijada, trabalhei muito pra chegar aonde eu cheguei, trabalhei muito, ouviu? Qualquer emprego eu pegava, fui de tudo nesta vida, desde leão-de-chácara de puteiro, porque eu era um armário, até gerente da empresa em que eu me aposentei. Trabalhei no porto, depois fiquei seis meses num cargueiro ilegal, que levava travestis brasileiros para o mundo, enrabei meia dúzia deles, senão eles me enrabavam, não te conto porque você não vai acreditar. Até motorista de político eu fui, não digo qual, porque eles sabem de tudo, talvez você até trabalhe para a família dele, que lhe quer presevar a memória. Não mesmo? Não tenho medo: já vivi tudo, quem acreditaria num decrépito como eu?

Conto como foi: o doutor me contratou por causa da carta de recomendação que um presidente de multinacional me dera, pelos serviços sujos que eu tinha prestado, coisa de assustar namorado pobre da filha dele e de ameaçar grevista. E me disse o excelentíssimo deputado: você fica de motorista meu e da minha mulher, mais dela do que meu, na eventualidade de tentarem alguma violência conosco fique com esta pistola, não se sabe o que os terroristas podem aprontar, até embaixador americano eles sequestram, que diga eu, ou os meus. Aceitei sem perguntar.

E foi quando vi: a esposa. Ela era linda, das mulheres de novela, como se tivesse saído da tv diretamente para o meu carro. Não dizia nada, só "vamos às compras na rua tal", e era tão perto da casa, que nem de motorista ela precisava, um táxi servia, dava conta. Sentia-lhe o perfume, ela no banco de trás, eu na frente, melhor assim, ela não veria que eu estava excitado, a calça me apertava, eu suava perto dela.

E num dia, sem poder ouvi-la, já passando do horário combinado de levá-la ao encontro do senhor doutor excelentíssimo deputado, gritei por ela, e nada. Assustei-me. Corri pra dentro da casa, pistola na mão, poderiam ser os terroristas que lhe haviam invadido o quarto, já a teriam amordaçado e eu de bobeira na garagem da casa, era preciso agir em silêncio. Fui entrando sorrateiro, cada cômodo era mais uma conquista, fui entrando, e deparei-me com a mulher do senhor doutor excelentíssimo deputado corno. Ela tomava banho à moda antiga, enchendo a jarra de prata com água quente e perfumada, enquanto acariciava o próprio sexo, e me olhava, a sem-vergonha, sugerindo que eu a amordaçasse, e que fingisse machucá-la, e era assim que ela queria, me dá um tapa, me chama de puta, seu terrorista filho-de-uma-grande-puta-comunista, ou socialista, ou anarquista, que eu não entendo nada de ideologias, quem entende é meu marido, que está ali, atrás da cortina, está vendo, o que ele gosta é de me ver sofrendo, ele tem prazer quando me submeto.

E ela fazia jorrar a água da jarra de prata, é prata mesmo, viu, seu filho-da-puta, e a água quente corria por mim, fumegava, fazia borbulhas de lascívia, estávamos os dois encharcados, da água perfumada, essa jarra vem dos pais dos pais dos meus pais, de uma fortuna que você nunca vai conhecer, de uma ancestralidade que você não vai ter nunca, e o marido ria, e nos observava e dizia, cala a boca dessa piranha, tortura ela, dá-lhe uma surra, e assim íamos a tarde toda de sexta, porque ele nunca saía pra trabalhar às sextas.

A política mudou, o excelentíssimo senhor corno perdeu as eleições, mas seguiu adiante com a empresa, em que me deu o cargo permanente de gerente, até a aposentadoria, sob a condição de calar-me para sempre, aquilo não tinha sido, nunca fora. Deu-me até esta jarra de prata com que você está me dando o banho, esta jarra, você nunca vai ver outra igual, de uma família que você nunca vai conhecer, de um emprego que você não vai ter nunca.

Nunca disse nada a ninguém, exceto a você, para que me respeite, para que respeite a história, os jovens não respeitam nada, para que você saiba com quem está falando. Eu fiquei quieto, nunca contei essa história para ninguém, não vou me meter com aquela gente. A gente sabe que ficou velho quando começa a ter medo.

Foto de Ezyê Moleda em http://agoramomentoinstantepresente.blogspot.com/2009/10/blog-post_16.html

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