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domingo, 24 de abril de 2011

O grande acontecimento 34 - Martim Crestado queima o filme

Até grandes acontecimentos demoram a acontecer. Diga-se: há tempo de cozinhar, há tempo de comer. Mas é o breve instante entre preparar a primeira garfada, farejar o odor do prato longamente preparado, aproximá-lo da boca sem abocanhá-lo, já os leitores percebem a pobreza vocabular do autor, tatear, num instante breve, o alimento nos lábios, para certificação de que não serão queimados, até finalmente saborear a feijoada cremosa, misturada à couve, a boca ainda amarga da caipirinha de Espírito de Minas, que também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão.

Martim Crestado queimou a boca num almoço de negócios, na Vila Madalena. Não que fora sua culpa: era novato, foi perdoado depois, os leitores não precisam preocupar-se com a sorte de nosso efêmero protagonista, outros virão, porque estão retomados os grandes acontecimentos. Mas Martim queimou o filme: elogiou o produto do concorrente, fazendo torcer o nariz aos superiores e aos inferiores. Ficou vermelho - desnecessário dizer, já no nome carrega a cor, ainda que pudesse estar queimado a ponto de tostar feito leitãozinho a pururuca e ficar preto-carvão, está criado mais um nome de cor para acentuar as vendas das lojas de roupas do mesmo bairro.

Não foi propriamente elogio - foi alusão elogiosa à estratégia adversária. Seguiu-se ao mal-estar uma desconversa de quebrar o gelo - por mais que a coisa tivesse esquentado e que Martim estivesse queimado, era preciso quebrá-lo, pedir mais um gelinho para a caipirinha, diluir a pinga em água, transformar a água em vinho, bebê-lo, e corrigir o traçado do papo. Desse modo, Martim procrastinou quanto pôde, sorriu amarelo, este é um texto sinestésico à moda de quem não tem mais o que escrever, mas o faz apenas pelo desfrute, apenas pela retomada da mão, que de filmes queimados também este autor está farto, gelos já não sabe mais quebrar, Martim, dizíamos, retomou a compostura e pediu desculpas: propriamente o grande acontecimento de sua vida, que pedir desculpas tem caído de moda, deixa-nos a todos vermelhos, mas faz recuperar a integridade, quebra o gelo e repõe a vida nos trilhos - esta última metáfora já especialmente gasta, de modo a encerrar o texto num lugar-comum, para não criar expectativas.    

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