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segunda-feira, 9 de maio de 2011

O Grande Acontecimento 36 - Miss Lexotan descobre que toma drogas (Clarice esteja)

Veja agora o leitor como este narrador imparcial, observador dos fatos, onipresente, onisciente e onipotente - sobretudo, onipotente - agora perde a onipotência e desce ao mundo dos reles mortais, das personagens, deus as tenha, todas elas fictas, para observá-las mais de perto, na farmácia ao lado da padaria, quase na esquina de casa. É Miss Lexotan que está a meu lado: está bem vestida, mas falta-lhe elegância; é bonita, mas falta-lhe brilho, os olhos estão em branco, o andar é desaprumado; é educada, mas falta-lhe tato com a farmacêutica. Como pode a receita ter passado do prazo?, verifique o leitor que a linguagem é falseada, deve ter dito, Coméque passou do prazo?, mas me parecem vulgares as palavras sem trato de diálogo. Dizia a Miss, Passou do prazo? Mas como pode?, e a farmacêutica, também ela sonolenta, como se estivesse embriagada da mesma medicação, Passou, senhora, essa receita é coisa séria, não posso vender esse remédio fora do prazo, é coisa séria, bem séria.

Volte-se-me o leitor o olhar: eu já havia me apoiado no balcão como se sentasse num bar, minha medicação era igualmente grave, também me faltam elegância e brilho, mas tenho ainda olhos de reparar na revolta da Miss, que argumenta à toa, Já disse antes, cada vez que venho aqui, parece que estou comprando drogas! e revoltava-se. Eu dizia a mim mesmo que ela estava mesmo comprando drogas, mas a prazo, sob prescrição, com preços de tabela, remunerando o Estado com impostos, temos até embalagem colorida, não é a mesma coisa, embora seja: todos os nossos remédios e obras são patrocinados pelo refrigerante mais popular do mundo e que nem por isso nos paga nada, nós é que pagamos a ele, refrigerante esse espalhado por todos os países. Aliás foi ele quem patrocinou o último terremoto no Haiti. Apesar de ter gosto do cheiro de esmalte de unhas, de sabão Aristolino e plástico mastigado, Clarice esteja.

Ao que respondeu a farmacêutica, com aspas e grifo nosso, "mas a senhora está comprando drogas". Miss Lexotan acedeu, resmungou, mas agora ganhou brilho, imagino que pensasse, Estou comprando drogas, essa é boa fala pra responsabilizar quem quer que seja pela minha desgraça, sou drogada, meu deus, Quem não é? interfiro eu, por mais que acabe ferindo as suscetibilidades de quem frequenta as academias. E Miss Lexotan viu-se pela primeira vez definida como pessoa humana, deus nos proteja das tautologias, podia agora completar a frase Eu Sou com o Predicativo do Sujeito que lhe convinha, Eu Sou Drogada - era pouco, talvez não fosse bonito, mas completava a lacuna.

Sorri para a farmacêutica, escrevi meus dados nos espaços em branco no verso da receita, comentei que, mais dia, menos dia, todos nos apoiaríamos no balcão, quase inertes, taciturnos, de olhos em branco, mas nutrindo grandes esperanças nos avanços da farmacologia.  

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