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terça-feira, 17 de maio de 2011

O Grande Acontecimento 37 - O delírio semiagonizante de Leon Decrepyt

Leon Decrepyt completara cinquenta anos: não era, portanto, nem velho, nem jovem, nem adulto. Vivia numa espécie de limbo, já que, desde a mais tenra idade, filiara-se a um partido de extrema esquerda. Participara ativamente do movimento da Anistia, aterrara-se com os atentados do Rio-Centro, atuara nos bastidores das Diretas Já, chorara com a queda do Muro de Berlim, revoltara-se contra a edição do debate entre Collor e Lula - enfim, considerava-se testemunha e agente da história da luta de classes no Brasil.

Mas aos cinquenta anos, sumariava-se em professor universitário, contador de histórias nos botequins da Vila Madalena, para os antigos colegas da USP, e de Perdizes, para os alunos da PUC, dentre os quais apaixonou-se por Cássia, estudante de Sociologia, que gostava de meninos e meninas, tomava drogas por questões religiosas, fazia meditação, não comia carne vermelha e frequentava a academia mais cara de Higienópolis. Em suma, tratava-se de um choque afetivo, político, partidário, ideológico, figadal e estomacal para Leon, que durante semanas desviara bravamente o olhar das insinuações de Cássia. Mas a carne era fraca, a dele, não a dela, bem entendido, e o policiamento ideológico tinha diminuído sensivelmente. No mais, Leon jamais se havia casado: dedicara a vida às massas, não às musas, sem ter tempo para tragédias subjetivas de caráter pequeno-burguês.

Na primeira vez em que saíram, Leon enrolou-se todo no Starbucks: pediu um café curto, mas a atendente sugeriu-lhe um latte-mas-não-morde; Leon pediu-lhe um expresso qualquer, mas ela retrucou que a oferta do dia era um mocassin-gosto-de-sola-de-sapato-embora-não-o-fosse. Leon tomou qualquer coisa, gostou, tomou mais dois, ficou alegrinho de café, quem diria, um produto que serviu de exploração a milhões de braços escravos, e ganhou o sorriso de Cássia, o que lhe valeu o dia. À noite, depois de uma tarde de sexo selvagem, que Leon não fazia há anos, maconha, uísque e cerveja, foram a uma casa noturna na Rua Augusta, assistir a um show de uma banda alternativa: Leon gostou das músicas, mas, em certa altura da noite, afligiu-lhe o coração, que acelerava seguidamente.

Era natural que Leon enfartasse: canções tão boas quanto as do seu tempo, o café estranho que tomara, o sexo, as drogas, o rock and roll, o clima de liberdade ideológica sem alienação, ou de alienação sem prescindir de posicionamento político e comportamental, ele não entendia bem que tempo era aquele, que pessoas eram aquelas, se eram pessoas ou se eram produtos, se as mesas dos bares ou os próprios bares tinham tomado a vida às pessoas que cantavam no palco, ou se elas é que sugaram ao balcão e ao telão a vida que tinham - tudo numa vertigem do sorriso de Cássia, que o fascinava e que parecia fascinada em fasciná-lo, numa troca que a ideologia burguesa chama de amor: era natural que Leon enfartasse.

(Num ambiente silencioso, de fundo vermelho, sempre vermelho, com uma brisa quente à esquerda, sempre à esquerda, Leon encontrou-se com Mário de Andrade, Não se apavore, Leon, é só amor, Mas e se ela me maltratar? e se ela me deixar? e se ela me alienar?)

Chama a ambulância, gritava Cássia, Não dá tempo, dá um choque nele com o amplificador mesmo - e essa sugestão que terá surpreendido o leitor não foi rejeitada por nenhum dos presentes, não havia nada a fazer, a casa estava lotada, até levarem o velhinho para a rua, até chegar a ambulância, até fecharem a comanda dele e da namoradinha, como pode um velho desses com essa puta gata, deve ser golpe, até tudo isso acontecer já virou presunto, abotoou o paletó, vai comer grama pela raiz, ninguém suspeitava que Leon queria ser cremado. Deram-lhe o choque com uma caixa de som velha, mais à mão, que ainda rugia algum som. Não funcionou: naquele mesmo instante o DJ soltara uma MPB que namorava o axé, vagabunda, pra fazer o pessoal tirar o pé do chão sem deixar de ser cool.

(Deixe disso, Leon: se você amar não aliena, não. Também você já fez a sua parte. Deixa a menina cuidar de você. Tudo vai dar certo.)

Outro choque, agora com o volume máximo: Leon não recuperou o pulso. O DJ agora se empenhara na reanimação: tentara um pop rock dos anos 90, com mensagens de autoajuda que, supunha, poderiam reanimar o velho comunista. Nada.

(Olha aqui, ó, Leon: você não acreditava no amor? "All we need is love"? "Imagine"? "God"? Lennon? O pessoal do protesto nos festivais? Era tudo sobre o amor, Leon, vai, aceita.)

E assim foi: alguém teve a ideia de tocar Lennon, pediu "God", julgando que o Pai Eterno intercederia naquele momento de desespero e todos puderam ver o que em verdade vos digo: aos primeiros versos da canção, o choque despertou o coração de Leon, que voltou para casa com uma certa ressaca e dormiu como a criança que nunca fora, no colo de Cássia, que o acolhia como a um menino.



God is a concept,
By which we can measure,
Our pain,
I'll say it again,
God is a concept,
By which we can measure,
Our pain,
I don't believe in magic,
I don't believe in I-ching,
I don't believe in bible,
I don't believe in tarot,
I don't believe in Hitler,
I don't believe in Jesus,
I don't believe in Kennedy,
I don't believe in Buddha,
I don't believe in mantra,
I don't believe in Gita,
I don't believe in yoga,
I don't believe in kings,
I don't believe in Elvis,
I don't believe in Zimmerman,
I don't believe in Beatles,
I just believe in me,
Yoko and me,
And that's reality.
The dream is over,
What can I say?
The dream is over,
Yesterday,
I was dreamweaver,
But now I'm reborn,
I was the walrus,
But now I'm John,
And so dear friends,
You just have to carry on,
The dream is over.

2 comentários :

Léa disse...

Fantástico, lindo.

Rogério Duarte disse...

Obrigado, Léa!