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domingo, 29 de maio de 2011

O Grande Acontecimento 38 - Carlos Marques vê a mobília dançante

- Vai, Carlos, ser gauche na vida - disse o pai de Carlos, à beira da morte - Coragem para a luta - ainda insistiu o velho Ricardo, marceneiro conhecido das famílias ricas de São Paulo, que garantira os estudos aos filhos forrando as casas dos ricos com armários embutidos, estantes para livros e mesas de centro. Foi isso o que disse pouco antes de partir desta pro vazio absoluto, ao menos foi assim que pensou Carlos, cuja orfandade era, de certo modo, um nascimento. Não teve mais que fazer: Carlos recolheu os objetos pessoais do pai, guardou os que tinham algum valor para partilhar com a irmã, livrou-se do que não prestava, vestiu o cadáver com o melhor terno que havia no armário, chamou parentes e amigos, e velou o corpo em casa mesmo, como era costume da família.

Foi exatamente no velório que começaram as alucinações, ou delírios, ou paranoias, chame-as o leitor como quiser, que eu de nomes não curo. Primeiramente, confundiu o choro da irmã com a gargalhada que ela costumava bradar quando assistia às vídeo-cassetadas na TV aos domingos. Ocorreu-lhe que ela poderia estar feliz porque herdaria a Parati 87 - mas as lágrimas aos olhos, dela e dele, o demoveram desse pensamento mesquinho. Logo depois, ao observar o marido dela, entretido na turma que costuma ficar do lado de fora do velório, fumando e contando piadas de defunto, imaginou que o cunhado o observava com desdém e cobiça, como se pudesse arrancar a Carlos algum resto obscuro de herança, que eventualmente a família desconhecia. Se precisar de alguma coisa, conta comigo, foi o que o cunhado disse, sem chorar, mas com o rosto transtornado, com a face distorcida, como se risse. Mais uma vez, o órfão abandonou o pensamento sinistro, todo ele informado da experiência concreta de Carlos no colégio, cercado de colegas ricos e interesseiros, que dominavam o Grêmio Escolar, que diziam agir em nome dos alunos, mas que só se mobilizavam por interesses pessoais. De uma Parati 87 aos interesses pessoais do presidente do Grêmio: assim pode observar o leitor a sandice em que se via metido o protagonista, que, para evitar mais pensamentos infaustos, rabiscava, com a mão esquerda, em tinta encarnada, no canto do velório, pequenas planilhas quase incompreensíveis numa folha qualquer de papel - um levantamento do pouco capital que o pai deixara disponível.

E foi nesse momento que Carlos pode jurar que viu a mesa de jacarandá e seus banquinhos, todos feitos pelo  velho Ricardo, artesão de primeira ordem, dançando em ciranda. Os banquinhos moviam alegres as perninhas, se é que se pode chamar a pernas os pés-do-banco, deus nos livre das catacreses, mas já estamos novamente imersos nelas, porque os pés-da-mesa tinham passo mais marcado, como se a mobília mais nobre da casa celebrasse em ritual sinistro da morte daquele cujas mãos tinham-lhe dado forma - e agora vida. Carlos viu que agora as mercadorias todas da casa se animavam: a mesa-de-centro era o centro das atenções, decorada de revistas de decoração, e também elas dançavam, fazendo correr as páginas num colorido que inebriava; a Parati 87, na garagem, roncava forte, como se quisesse dar ritmo ao ponto entoado pela banda do jacarandá; o rádio ganhava o volume máximo, empinando, fálico, a antena; a luz da TV conferia a ambiência de casa noturna ao velório - e o volume do som fazia que as pessoas se calassem, ou que pronunciassem frases disformes, soltas, sem sentido, enquanto assistiam, inscientes, ao espetáculo.          

Um comentário :

rafael disse...

esse foi um roteiro pros sympsons de dia das bruxas. que medo de vc sem cigarros.