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segunda-feira, 30 de maio de 2011

O Rejunte e as histórias de avô

Pois eu digo à senhora Juliana, essa de nome artístico Julli Pop, que dá pra rejuntar coisas sim, ora como não? Foi assim que aprendi, foi meu pai que me ensinou: que de todo copo quebrado pode nascer um cinzeiro - que pode ser feio, mas é pra pôr cinza, deixa feioso mesmo; se tiver pontas perigosas e afiadas, a gente apara e arredonda; também me disse meu pai que prato que cai no chão tira mau-olhado - por isso é bom que quebre - e que é bom dar esse prato às crianças, pra brincarem com os pedacinhos já arredondados, como se pudessem afastar o invejoso e grudar a gente mais na visita anunciada pelo garfo ou pela faca, que também despencaram da mesa: todos os objetos caem. Pedaços de janela quebrada meu pai não podia ver: já recolhia os cacos, moía, misturava com bastante cola pra perder o fio e ia texturizar a neve, ou a chuva, ou o pólen, nos desenhos que fazia com os netos; pedaço de telha que voava ele recolhia, ia colocando todos num canto, esmigalhados que ganhavam forma: quando víamos, já tinha ali um caminho meio traçado entre os arbustos do jardim. Ninguém nunca sabia, ele também não respondia, onde ia dar aquela vereda: todas as coisas caem e quebram, mas não quer dizer que não tenham a chance nova de ter uma outra utilidade.


Mas a senhora é artista de palavras, melodias e formas, estou me estendendo à toa aqui - a senhora sabe transformar telha, sabe fazer versos, sabe olhar o porvir, sabe de tudo isso que meu pai sabia. Eu fico calado à noite em casa - sei pouco desses mistérios, só mesmo agora é que estou aprendendo -, ouvindo suas músicas e cismando se - será se a senhora não faz rejuntes com as palavras e a melodia, com o marido? Eu acho que sim. E respondo humilde que - sim, tudo é rejuntável, não só os copos, os pratos, as telhas - as pessoas e os tempos são também. Gente também cai e quebra, tempo acaba. Mas tem diferença: gente não é pra ter utilidade - nem as suas músicas. E é aí que fica bonito: as pessoas todas tropeçam, erram, às vezes fazem até maldades - mas sempre vem duas outras pessoas: uma mais velha, se não for pai ou mãe é como se fosse, pra rir da desgraça, ajudar a levantar e aparar as arestas pra que elas percam o corte; uma outra, se não for criança é como se fosse, pra fazer a mágica de transformar a ponta arisca que o avô arredondou em topos de morros de onde se vê o infinito.

Assim: infinito é pra frente, mas é pra trás também. Acho que nem todo passado é descartável - tenho aprendido mesmo que a gente precisa respeitar o que ficou pra trás, mesmo as coisas que a gente desgosta, pra fazer o sumo do rejunte; nem todo futuro é esperável - tudo se despedaça, até o que foi rejuntado, pra virar outra coisa, depois outra - mesmo se ficar só pó, pode virar areia de praia, pra virar castelo, de uma criança que brinca despreocupada, ouvindo histórias de avô.

2 comentários :

Julli Pop disse...

Nussa professor! Fiquei sem palavras agora, virei pó pra virar rejunte e depois nova forma nas mãos de alguém ou nas minhas mesmo! Que lindo isso. Amei a resposta em post! Não tenho nem muito o que dizer! Grata por existir com palavras e fazer parte de nossa história!

Zilda disse...

Belo texto. Aprender com nossos pais é um rejunte da vida.