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terça-feira, 14 de junho de 2011

O Grande Acontecimento 39 - Giselle Padrão não tem nada a dizer

Eu tenho vontade de matar essa criança.

Assim declarou Giselle Padrão, âncora renomada do telejornal vespertino repleto de histórias de sexo e violência, enquanto jantava com o marido e a filha de dez anos. Estes dois coitados não souberam que dizer: esperavam que Padrão completasse com uma brincadeira, ou uma justificativa, ou um desabafo desbragado, ou um arroto que exalasse champanhe - tudo que pudesse restituir ao pai a tranquilidade de si e a segurança da filha, e à filha a confiança na mãe: não é todo dia que se dorme com um barulho desses, ainda que Padrão não tenha gritado, nem dito a frase num tom aflito. Ao contrário: embora lindíssima, ainda com a maquilagem do programa, tinha os olhos brancos, vazios de cor - era tão bonito o verde dos olhos dela na rede de tv da faculdade, repetia sempre o marido, nos programas de turismo em que ela fazia esportes radicais, uhú, ele lembrava desse grito. Mas fizesse o que fizesse, a jovem Padrão nunca perdia a entoação que a caracterizava, sempre no mesmo tom, acento, volume e timbre, até quando gritava uhú, saltando de pára-quedas, ou planando de asa delta, ou fazendo rafting, ou escalando picos, ou suando em trilhas selvagens, ou cruzando rios da Amazônia à procura de pássaros exóticos - nem quando ouviu o canto mágico do uirapuru ela se encantou, nem quando raiou a aurora boreal ela perdeu a impostura vocal.

A frieza de Padrão levou-a rapidamente ao estrelato nacional, no telejornal vespertino repleto de histórias de sexo e violência - antes dela, uma outra jornalista estragara o programa debulhando-se em lágrimas porque assistira ao vivo a um suicida lançar-se da cobertura do Copan; o substituto desta coitada se emocionara demais ao comentar uma reportagem a respeito de clínicas de aborto, em que imagens de fetos despejados no lixo comum o fizeram perder a linha em cadeia nacional, admitindo que já forçara uma namorada da adolescência a fazer um aborto - o que resultou no pedido imediato de demissão, há fracos que perdem um emprego desses por dilemas de consciência, assim entenderam a produção do programa e a direção da emissora. Padrão não, esta se afirmara na frieza do comentário, no equilíbrio da entonação e da dicção, na objetividade jornalística que um programa como esse requer, sem subjetivismos que comprometam a qualidade da informação.

Acontece, entretanto, que Padrão declarou à mesa que tinha vontade de matar a própria filha. O marido, depois do estupor inicial, perguntou, Coméqueé?, Que história é essa?, a menina desatou a chorar e foi acolhida por Eliciane, a faxineira, cozinheira e interlocutora da menina, que todos precisam de uma interlocutora nesta vida, mesmo quem é filho de celebridade televisiva. O marido sacudia a esposa, Quéisso, Gija?, ao que ela respondia, Já tive vontade de amarrá-la ao pé da cama, por meses; já fantasiei que você me traía com a empregada, para que pudesse cortar seu pau fora, outra vontade grande que eu tenho; senti tesão na empregada e quis fazê-la cativa no porão, para que abusássemos dela seguidamente, por anos, até que fôssemos encontrados e condenados à prisão perpétua; na faculdade mesmo eu tinha vontade de subir no alto do castelinho e fuzilar o pessoal da engenharia, às vezes eu acho mesmo que seria uma serial-killer, queria entrar na sala de aula do colégio e com um olhar deixar todos os meus colegas fulminados; você mesmo, além de cortar seu pau, eu queria arrancar seu coração com as mãos, depois fritar, depois comer, olhar nos teus olhos e gozar com o prazer de vê-lo perder a vida, de degustá-la esvaindo-se aos poucos, captar o momento exato da passagem entre a vida e a morte, tudo isso me dá tesão, prazer, necessidade, vontade, eu me masturbo pensando nisso.

E continuaria infinitamente, se este narrador tivesse mais crueldades a inventar, será ele mesmo um psicopata? terá pensado o leitor, mas não há porque dar asas à imaginação, nem aguçar os piores sentidos, nem ativar os recônditos irracionais que todos temos, é o que dizem os psicanalistas, deus abençoe os shopping-centers, em que podemos deixar vazar nossas pulsões, e ainda que não os haja, sempre haverá vídeo-games violentos que nos saciem parte desse monturo que se chama irracionalidade humana. Mas Padrão não continuou, é escusado dizer que declarou aquelas monstruosidades todas sem perder o ritmo, como se entoasse as notícias do dia, escorreita, fluente, natural - o horror mesmo do marido interrompeu-a, ele que não pôde dizer nada, não sabemos se por medo de perder o pênis, ou se por já ter percebido que a esposa gemia na intimidade da mesma forma que gritava uhú, quando era jovem, no programa de tv da faculdade, esse uhú fora seu primeiro bordão, depois se estendera aos brothers que ingressam na casa, momento mágico da tv brasileira e mundial que se repete anualmente. Dizíamos que ela gemia, culminando sem ápice, porque era monocórdia, com os ais, que tesão, mete mais, goza pra mim, essas frases de alcova, todas elas da mesma forma, como se apresentasse aos telespectadores, no início do programa, o panorama geral das notícias da nossa trepada, foi assim que ele pensou, sem deixar de notar que Padrão gostava de foder com a tv ligada, Como se alguém estivesse assistindo à nossa foda, ela dizia assim, mas meio sem tesão - e o marido se consolava com a perversão da frase em si, desprovida de ser sensível que a proferisse, ainda assim era frase tesuda, de filme pornô, a que ele assistia secretamente, à cata de uma variação vocal que fosse, qual casamento não tem os seus problemas? era assim que ele pensava, em tentativa de conformar-se, porque gostava mesmo da mulher, vai fazer o quê? dizia ele aos amigos no chope, eu gosto dela assim, ué.

A gente precisa ver isso, Gija, você está com problemas, se quer mesmo fazer isso tudo, a gente tem de consultar um psiquiatra sei lá. Mas Giselle não tinha mais nada a dizer, nem mesmo isso ela disse, abraçou forte o marido, exausta, e chorou por horas.


Um comentário :

rafael disse...

genio.