Total de visualizações de página

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Grande Acontecimento 40 - A gnoma Gipseida e os caminhos desta minha terra

O leitor não sabe, mas cada uma das tecnologias desenvolvidas pela humanidade desde o século XIX – e até antes, dirão alguns historiadores – está baseada na exploração de seres semi-inanimados. Trata-se de gnomos, estranhas criaturas feiosas submetidas a ocupações exaustivas e repetitivas. Mas tudo pode piorar: criaturas como essas – dizem-lhes os criadores – são recompensadas com a própria existência. É assim: nascidas e criadas para labutar sem descanso e para acabar em lixões – ou mais recentemente em centros de reciclagem, deus proteja os homens criativos, que agora deram vida digna ao lixo -, essas quase-pessoas são educadas sabendo exatamente a parte que lhes cabe deste latifúndio, acreditando que suas vidas são dádivas inestimáveis – e que tudo é melhor que o vazio de não existir.

Gipseida é gnoma vocal, nascida e criada para orientar os verdadeiros humanos, destinada a viver eternamente dentro de um aparelho de GPS. No começo, a vida até que não é difícil, já que o primeiro carro em que Gipseida trabalhou foi uma Mercedez amarela, conduzida por um motorista, empregado de um empresário, cujos filhos tinham de ser levados à escola, às academias, às escolas de língua. Assim, o dia era agitado, mas, à noite, Gipseida podia descansar. Nossa heroína deleitou-se nas primeiras semanas, em que sua voz era o centro das atenções e sua tecnologia – ela própria, digamos tudo – era inédita no Brasil. As crianças adoravam ouvi-la dizer Após quinhentos metros, vire à direita; o motorista se divertia com ela, quando não lhe respeitava a rota e a obrigava a refazer o caminho, Refazendo a rota: após trezentos metros, vire à esquerda.

Foi exatamente a teimosia desse motorista, Severino seja ele, que ensinou à Gipseida algo que ela desconhecia: que era possível escolher os caminhos. Os mais curtos não eram necessariamente os mais bonitos ou menos congestionados; nos mais longos, às vezes, era possível aprender alguma coisa: Este é o Masp, Museu de Arte de São Paulo; Nesta padaria come-se o melhor sanduíche de mortadela depois daquele do Mercadão, era o que diziam os humanos no carro – e Gipseida acumulava essas informações religiosamente. Foi aí que lhe brilhou na mente uma ideiazinha que seus captores, os homens que arregimentavam a gnomada toda, jamais puderam imaginar: e se ela pudesse orientar os homens pelos caminhos mais bonitos ou mais úteis, sob outras perspectivas, além da menor distância?

No dia em que decidiu que falaria a Severino, Gipseida foi vendida para um amigo de um dos filhos do empresário, que a vendeu para um amigo da faculdade, que a vendeu para outro, que não gostou dela porque sua tecnologia já estava superada: Gipseida era um trambolhão, se comparada a outras gnomas de GPS. Gipseida virou uma pechincha e acabou nas mãos de um recém-formado em Administração, que a batizou com o nome que já conhecemos. E ele conversava com ela, carinhoso: Olha, talvez virar à direita não seja uma boa; Hoje não vou te obedecer; Faz o caminho, Gipseida, que eu te sigo; Essa é a Gipseida: sabe tudo! Ela sabe dos caminhos desta minha terra... ele até cantava para ela.

Era inevitável que Gipseida se apaixonasse por esse humano tão atencioso, com quem teve a chance de conhecer o amor. A ele, se pudesse, se não os distanciasse a condição degradante da semi-pessoa, ela dedicaria todas as informações para além dos caminhos mais curtos: recomendaria os melhores restaurantes se ele estivesse com grana e os mais baratos e bons, se estivesse sem; sugeriria roteiros de paisagens bonitas todos os dias, criando as rotas mais agradáveis, sem trânsito nem ocorrências policias; e recitaria as canções bonitas que ouviu nos rádios dos diferentes carros em que esteve.

Decidida a reverter o vazio repetitivo de não existir para aquele que amava, Gipseida não cumpriu o destino que lhe fora previamente traçado no dia de sua concepção: declarou-se ao condutor, sugerindo-lhe, na rota traçada, que, antes do trabalho, fizesse uma parada no Parque, para apreciar a natureza. E nesse dia conheceu os homens: sua declaração de amor foi interpretada como defeito de funcionamento, que a levou à loucura e ao desaparecimento num Centro de Reciclagem.


Nenhum comentário :