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sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Da ficção à realidade

Sem metáfora: não há segredos, nem alegorias, nem charadas. Porque, de certa forma, toda literatura é uma maneira de mentir ou de mentir-se. Não estou pra personagens, mas pra pessoas; não estou pra narradores, mas pra pontos de vista claramente expressos, adotados sem medo, a partir de experiências concretas. Não estou pra metaliguísticas: chega de dobrar-me sobre mim mesmo, já passa da hora de dobrar-se sobre os outros - quero debruçar-me por ela sobre ela -, promessa que fiz, um dia, e que não cheguei a cumprir a contento.

Também não quero mais os procedimentos discursivo-estilísticos do passado: esta literatura engajada sempre respondeu a interesses particulares. Era como se um grande romance sobre a exploração do trabalho convergisse apenas para os traumas familiares de um membro caprichoso das classes médias altas, bicho bonito, mas acuado num quarto escuro, barulhento se ameaçado - por quem? As ameaças são todas fantasias, restos de bichos-papões que viraram colegas de trabalho. Os ataques de defesa, todos, à moda de panfleto, recobertos de recursos grandiloquentes escamoteavam um oco de gente acuado, agora, num canto de bar, só pra imitar alguma celebridade hollywoodiana. A farsa: a narrativa tinha verniz europeu, mas era produto-mercadoria da indústria cultural mais lucrativa, artificial, desinteressante e desinteressada de questões sociais.

Mas toda mercadoria deixa resíduos - e estes é que me compuseram, até ontem. Foram acumulando-se aos poucos, intoxicando o que podiam, com restos de latas, de garrafas, de cervejas derrubadas, de bitucas de cigarro e o cheiro que deixam na casa pela manhã; também de livros não lidos, de pretensões e veleidades. Desse monturo pútrido e acatártico, que tomou a forma de esfinge e que devorou quem se aproximasse, surgiu um reciclável sedutor à primeira vista, até comprável, se o consumidor a que se dirigia não se importasse muito com o descarte rápido. Quem tentasse reter ou conservar o produto via-se às voltas com o cheiro insuportável ou com o esfacelar rápido do fetiche efêmero da mercadoria avariada. O sólido se desmanchava no ar - porque não era sólido, afinal.

Ontem, tudo mudou: não houve frases feitas, nem volteios argumentativos. O salto não girou sobre si, mas verteu-se sobre o outro, e o eflúvio desapareceu. As sentenças foram objetivas, embora algumas delas ainda estejam por escrever. Não havia canto obscuro: o incômodo todo iluminado deu num moleque ainda sem face, cheio de medo, mas novo. Não há planejamento na narrativa, ela desapareceu - hoje quem acordou foi a vida concreta, que não foi para frente, nem arrependeu-se do passado. A vida em estado puro, do começo. Não há planos, nem expectativas. Há verdade, não há literatura.     

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