Total de visualizações de página

terça-feira, 30 de agosto de 2011

De que as pessoas gostam e a realidade

Quando assistem a Perfume de Mulher, as pessoas sempre se lembram de Al Pacino - que, no filme, representa um militar aposentado cuja visão foi perdida num acidente irresponsável com uma granada - dançando tango com uma mulher bonita. A cena é inesquecível: "Por una cabeza" impecavelmente executada, a dança conduzida sem pressa e sem demora, na simetria perfeita dos movimentos dos corpos, como se simulasse o ato amoroso do homem maduro com a mulher jovem, a quem ele ensina passo a passo a própria vida - como o próprio diálogo que antecede a cena antológica sugere. Se errar, basta seguir adiante.

Mas não posto essa cena aqui. Ela é bonita, mas idealizada, e escamoteia uma faceta menos desejável do Coronel, personagem de Al Pacino. A cena de que mais gosto é a do jantar de família, em que o militar aposentado, depois de estragar tudo com suas histórias obscenas, sua bebedeira e seu charuto, acaba sendo atacado verbalmente pelo sobrinho - que afirma que talvez deus julgue que algumas pessoas não merecem ver. Ao final, Pacino diz ao irmão que "não presta pra nada, nem nunca prestou", num momento de clareza digno de um cego que sabe ver bem quem é e o mal que fez as pessoas.



Sempre gostei da cena da dança, mas hoje prefiro a cena do malogrado jantar de família. Dela fica a sugestão de que olhar a si próprio, com os próprios olhos, pode cegar - mas, finalmente, dá a clareza necessária para que conheçamos os nossos piores recônditos. Como escrevi no post anterior, não tenho mais tempo pra adiar a investigação minuciosa de mim mesmo, por mais que ela me mostre que não presto, nem talvez nunca tenha prestado pra nada.    

Nenhum comentário :