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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Insônia (ou um post enfadonho num blog enfadonho) e chuva

Este blog começa a perder o sentido. Cada vez mais fragmentos de textos alheios, e não meus. Ontem mesmo ensinei aos meus alunos do CPV que os autores da Modernidade foram percebendo o vazio que é a vida - e preparando a aula sobre a Morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi, reproduzi aqui um trecho do livro, daqueles que eu gostaria de ter escrito.

Pois bem: este é mais um post enfadonho, com um texto que não é meu. É o que é possível fazer hoje. Amanhã, se eu conseguir dormir, haverá de ser outro dia. Um passo por vez. O fragmento abaixo: trecho inicial de "Insónia", de Álvaro de Campos, heterônimo de Pessoa.

Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.


Espera-me uma insónia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.


Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!


Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!


Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

E essas coisas transtornadas de que arrependo e me culpo talvez constituam o que sou - erros que se acumularam nos anos. A composição de mim mesmo pela negativa - decomposição? A fúria de destruir o que me ameaçava tornou-se o comportamento-padrão - e acabei por destruir tudo. Não existe passado, nem presente, nem futuro - só um contínuo inconsciente de autodefesa contra o que quer que seja. Em fragmentos de celebridades musicais ou televisivas, que eu imito pra tentar ocupar este vazio que não cessa de doer. 


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