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terça-feira, 13 de setembro de 2011

A esteira, o espelho, a tevê e a janela

Quarenta minutos de esteira, sem puxar muito o ritmo, que não sou lá de querer superar os meus limites. Olha, eu te digo: só faço esteira porque me mandaram, o médico, as pessoas razoáveis, as propagandas, o mundo inteiro. É melhor não fumar e fazer esteira; é melhor não beber e fazer esteira. E por mais que haja dentro de mim um oco que não cessa, acabo concordando, porque é melhor mesmo: sou mais feliz, ou menos infeliz, quando não fumo e não bebo. Está tudo lá, em "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" - Matraga não é Matraga, não é nada, sou eu, Carlos, gauche na vida. Minha hora e minha vez talvez não cheguem nunca, tanto ódio eu já purguei rua afora. Agora eu faço esteira, quieto, ouvindo música ou assistindo a um seriado americano, tentando experimentar alguma serenidade.


Mas o espelho, à minha frente, desvia minha atenção - eu quero assistir às ironias, malcriações, vícios e desvios do Dr. House, mas a imagem no espelho à minha frente segue se insinuando para mim - eroticamente? Há algo de masturbatório em todo espelho de academia, onde as pessoas se admiram, mas duvido sempre de espelhos, que não são pra se confiar: pode estar na imagem refletida um sujeito mais forte do que eu, mais bonito do que eu, mais gentil do que eu, menos viciado, mais equilibrado. Esse, suando forte na esteira, peito à frente, aprumado, postura ereta, organização atlética, olímpica, arrisco dizer - esse não sou eu. Matraga não é Matraga, não é nada, sou eu: Carlos, aquele que pisa nos calos, diz as suas verdades, arrasa sua família e as dos outros, envenena a cabeça das pessoas e a minha própria sem motivo, só por prazer de destruir tudo mesmo, como meu ancestral do interior de Minas, deus o tenha, Augusto. Ele tomou a surra dele, eu as minhas. No espelho, não sou eu correndo na esteira - é um reflexo imperfeito e idealizado de mim; observando bem, percebo que algumas cicatrizes no meu rosto traem que não sou são. 


Assisto à tevê, então, mudando de canal furiosamente: eu-imperador no canal de história; eu-protagonista na série de tevê americana; eu-pastor no canal evangélico; eu-orientador-espiritual no canal católico; eu-treinador de cães no canal dos bichos; eu-entrevistado no talk-show norte-americano; eu-doutor-house no canal universal: eu sempre arrogante, metido a gênio, acreditando que as intuições virão a mim sem que eu estude, protegido de todos apesar de lhes fazer mal, autocentrado, interesseiro, manipulador, viciado - eu real, na ficção da tevê universal. Meus amigos imaginários: Clarice ao meu lado, fazendo bicicleta furiosamente, me avisa que o patrocínio que recebo vem do refrigerante mais popular do mundo e que nem por isso me paga nada, contaminando este texto, este blog e a mim mesmo do cheiro de esmalte de unhas, de sabão Aristolino e plástico mastigado. Tudo isso não impede que todos o amem e me amem - nós-produtos - com servilidade e subserviência. Somos hoje - atualizados e pisando a hora presente.

Subitamente, desvia-me o olhar - a janela. Nada lá fora está planejado. Depois de quase uma hora de esteira, eu já me habituara à imagem dos meus pés, calçando tênis Nike, palmilhando as dificuldades, superando meus limites, fazendo-me mais humano e sobre-humano - eu-garoto-propaganda; já me apaixonara por mim mesmo, correndo, vencendo uma corrida imaginária que não existe, deixando para trás os meus adversários, num átimo de identidade por meio da aniquilação alheia - eu-deus-olímpico-macho-adulto-branco-da-vitória esmagando sob meus pés a própria vitória; já me vira em todos os filmes, reality shows, entrevistas, espetáculos, sempre em destaque, sempre sob a luz dos holofotes, sempre ostentando uma supremacia qualquer - eu-sólido-que-desmancha-no-ar. 



Mas no mundo que corre lá fora, a janela deixa entrever limites que nada têm que ver com superação - são só limites. No mundo lá fora, não se bate sequer um recorde - as pessoas erram, depois acertam, e voltam a errar, porque é assim mesmo, quem não erra duas vezes? Pela janela, vejo um magrelo barrigudo - eu próprio? - caminhando na praia. Ele caminha devagar, é o ritmo dele, um passo de cada vez, às vezes pára, porque parar também faz parte de ir adiante, às vezes ele volta atrás. Às vezes senta, olha o mar e diz, Que bonito esse mar, depois diz, Carlos, sossega, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, hoje é terça-feira, o céu borrou a cor e hoje ninguém sabe o que será. E só. Interrompe a caminhada no meio, ninguém precisa fazer tudo em um só dia, São Paulo não cabe dentro de Rio Branco - mas eu digo que todo Norte, Nordeste e Centro-Oeste não cabem dentro de São Paulo. Tudo é mais difícil no improviso, algumas coisas dá pra planejar, outras não, algumas simplesmente acontecem.


No mundo que pode ser observado pela janela, quase não há espelhos - mas há pessoas, que são, de certa forma, espelhos de parque de diversões. As que me amam, às vezes exageram minhas qualidades, quando estou triste ou faço besteira, às vezes exageram-me os defeitos quando mereço. No mundo assustador, para além da janela, não há imagem definitiva - há esboços de mim, uns sem cor quando estou triste, uns sem traço, quando estou em transição. Não há espelho, nem fotografia - há, quando muito, desenhos em sequência, no canto inferior direito das páginas do caderno, desenho animado que eu fazia só pra me divertir, às vezes sem começo, nem fim - haverá meio, se a história é assim descomposta? Há as pessoas que me odeiam, que de certa forma são os espelhos invertidos - exageram o que tenho de ruim, escondem o que tenho de bom. Não me importo. A imagem é passageira, as pessoas também, quero sorrir quando o homem-palitinho, desenhado no canto do caderno, caminha. Assim, para o nada. Mas faz sorrir.


Com a tevê é diferente: o que está nela está na janela, mas em perspectivas diferentes. Eu me explico: a tevê é uma janela, mas só uma. Acontece que à minha frente, desde pequeno, colocaram quatro ou cinco tevês, além de não me deixarem chegar muito perto da janela, com medo de que eu caísse. E foi assim que o medo me compôs - a mim e a Augusto Matraga, diga-se de passagem, embora Matraga não seja nada, nem eu, Carlos. Era a tevê que me alimentava o medo de não vencer nada, e ficar para sempre na categoria dos derrotados, cuja vida não aparece na tevê; o medo de não superar os meus limites - porque diz o ditado que a tevê repete que meu pior inimigo sou eu mesmo - então optei por aniquilar-me, de modo que eu nunca mais pudesse atrapalhar meu projeto de deixar todos para trás, inclusive a mim mesmo. Foi a tevê que me apavorou: o segundo lugar no pódio, morar de aluguel, o subemprego, a preguiça, a falta de formação superior, a desajuste, a impossibilidade de ter casa, carro, roupa de marca, o esquecimento quando eu morresse, a namorada feia, a família desestruturada - tudo isso eu insisti em vencer, em superar.


Quase uma hora de esteira, sem puxar muito o ritmo, os olhos fixos na janela. Ao passar de uma hora de funcionamento, minha namorada me pergunta "ainda aí?"  - se não vem de mim o equilíbrio, as pessoas amadas podem me alertar das bobagens que posso fazer. Saio da esteira, piso agora o chão concreto, não o da esteira, que corre falso sob meus pés, que me faz completar quilômetros de caminhada sem que eu saia do lugar. A sensação é de torpor, como se eu estivesse à beira do desmaio, mas insisto em ter os olhos abertos, quase cego da claridade do que é real. Desligo a tevê - no meio de um episódio interessante, na cena mais engraçada do filme, na reportagem do noticiário que mais me interessava. Descalço o tênis, corro para fora - a janela me mostrava uma praia bonita, ainda quase virgem, com grama pra pisar - e piso a realidade: a espantosa realidade das cousas é a minha descoberta de todos os dias, para além da janela.

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