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sábado, 17 de setembro de 2011

Holden Caufield e a nova forma de envelhecer

Provavelmente, um dos livros que eu mais li e distribuí para os outros foi O Apanhador em Campo de Centeio, de J.D. Sallinger. Li-o pela primeira vez, no colégio, na sétima série, a pedido do Professor de Língua Portuguesa - o Bido, hoje um grande amigo. Evidentemente me apaixonei pela leitura de imediato, já que a personagem principal, Holden Caufield, era um desajustado, e eu me sentia exatamente como ele, extremamente deprimido e vazio.

Ao longo dos anos, fui comprando vários exemplares do livro, mas nunca ficava com eles - distribuía-os a quem eu achasse que precisava ler, isto é, a quem eu supunha ser desajustado e deprimido como eu. Também dei alguns exemplares a amigos que não tinham nada de desesperados ou de deprimidos - mas que eu gostaria que conhecessem um lado meu que era menos aparente, porque, na maior parte do tempo, com as pessoas, eu era alegre, fazia rir, fui boa companhia de papo e de copo, até começar a exagerar e ficar chato, porque na alma me ia e me vai uma tristeza grande, que, agora que estou mais velho, tem vazado cada vez mais.

Se é cada vez mais comum a constatação de que a juventude tem sido cada vez mais precoce - e a minha foi cheia de precocidades, bebendo aos quatorze anos, por exemplo, e esse foi só o começo - talvez não seja equivocado afirmar que a velhice tenha chegado mais cedo a mim. Talvez ficar velho, hoje, tenha outro significado: a velhice começa mais cedo, porque a maturidade foi precoce, o que não quer dizer que a vida adulta tenha ocorrido plenamente. Aliás, o que é mesmo a vida adulta? Canso de ver gente supostamente adulta fazendo as cagadas que um adolescente faria - um amigo do Bido, o Régis, do qual tenho saudades que chegam a doer, dizia que "adolescente grita e tropeça". É o que fazem quase todos os adultos que conheço - e não me considero adulto nem maduro. Acredito que sou um velho imaturo, se é que é possível uma coisa dessas.

Este texto não está indo a lugar algum, e eu mesmo tenho de dar aula hoje, daqui a pouco, então voltemos ao tema: estou relendo O Apanhador, mas agora em língua inglesa - parte do meu envelhecimento; eu, que rejeitava o inglês a todo custo (língua imperialista), agora leio várias coisas nesse idioma, por causa da facilidade do Kindle, que eu adquiri e que recomendo a todos, graças ao Alex Castro, outro cujos textos sempre me fascinam (ele tem praticamente a mesma idade que eu, vive de escrever, faz doutorado, mora em Copacabana e já publicou um romance - eu queria ser o Alex). A releitura do livro de Sallinger tem me mostrado algumas coisas: a primeira é que, apesar de estar vinte e poucos anos mais velho, ainda guardo em mim boa parte do moleque acuado e assustado que leu O Apanhador pela primeira vez, na sétima série; a segunda é que, já naquela época, eu era este velho que sou hoje - quem fez merda precocemente aprende a cultivar o que não presta, e esse cultivo  pode afetar a alma numa intensidade que não é possível mensurar - mas que dói pra cacete. Há uma nova forma de envelhecer - é o que, talvez, já estivesse escrito em O Apanhador em Campo de Centeio. Estou cada vez mais grisalho, mas tenho a impressão de que já era grisalho aos quinze anos, da mesma forma que Holden.

Pra fechar, dois trechos da obra.

Life is a game

Life is a game, boy. Life is a gama that one plays according to the rules.” (…)
Game, my ass. Some game. If you get on the side where all the hot-shots are, then it’s a game, all right – I’ll admit that. But if you get on the other side, where there aren’t any hot-shots, then what’s a game about it? Nothing. No game.

Papo com o professor


I’m lucky, though. I mean I could shoot the old bull to old Spencer and think about those ducks at the same time. It’s funny. You don’t have to think too hard when you talk to a teacher. All of a sudden, though, he interrupted me while I was shooting the bull. He was always interrupting you.


À aula, que começa daqui a pouco.

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