Total de visualizações de página

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Monólogo do Eu-estranho

Tenho estado farto de mim: eu-estranho que assoma toda vez que aparece uma luz na sombra, numa intensidade gradual. Eu-estranho estrago tudo: sou preconceituoso, largo tudo por causa de nada, bato portas, quebro espelhos. Eu-estranho: não sou flor que se cheire. Sempre à espreita - eu-estranho vivo nos escuros do homem, nos crespos do cabelo sem lavar, me aproveito dos vãos e dos pontos-cegos - eu-estranho falo alto sem motivo, ataco gratuitamente tudo que não me faça as vontades e satisfaça os desejos. Eu-estranho-só-eu, evidentemente, por mais que esteja cercado de gente, que trabalhe com público, meu interesse é sempre privado, secreto, íntimo - não sei que desejo é esse. Eu-estranho: quero ganhar tudo. Se a vida fosse teatro, eu seria o diretor da peça, pra levar o crédito, o ator principal, pra ser bajulado, e o produtor, pra ficar com a grana e comer a mocinha no fim da noite. Se a vida fosse filme hollywoodiano, eu seria a surpresa final, surpreendente para os fúteis, previsível para os cinéfilos, fugaz para todos. Se a vida fosse um filme europeu, bem metido a inteligente, eu seria falha no roteiro, ou deficiência técnica. Finalmente, se a vida fosse um filme brasileiro, eu seria a sonorização imperfeita.

Mas a vida não é filme: a vida é vida, eu não sou diretor, mas talvez seja ator o tempo todo: sou visitado às vezes deste Eu-estranho-diversas-personagens que ficam remoendo histórias, errando pelos corredores, resgatando livros e CDs velhos, pra ver se ficou alguma coisa que preste - se tem algum lixo pra reciclar. Mas o Eu-estranho não se faz só de passado - ele também obscurece o presente, amarra a língua, desfaz a lógica, compromete a impressão do real: Eu-estranho tem os sentidos aguçados, basta-lhe o cheiro de cigarro pra querer incendiar o mundo, um sombreamento pra querer o meio-dia, um calor gostoso pra jogar frases frias na minha cara. Não tem desfrute, o Eu-estranho, por mais que se alimente das dores alheias para ficar por cima, sempre à cata de uma supremacia, qualquer que seja.

Eu-estranho às vezes desaparece, mas sempre acaba voltando, sem olhar para o cão, maltratando todos à volta, ou prometendo mentiras a todos a quem magoou. No mundo de Eu-estranho não há amor, nem compaixão, nem entrega - por não ver além de si, Eu-estranho vê todos os outros como iguais, não porque os respeite, mas porque não pode ver além da própria estatura. Eu-estranho é pequeno, mas vê do alto do palco, se faz de grande, de toquinho maluco, que cospe na cara dos outros, basta um pequeno sinal de proximidade. Não tem mérito que o satisfaça, não tem prova de amor que o convença, não tem prêmio ou aplauso que lhe preencha o vazio: Eu-estranho não agradece, pra fazer charme de artista.

Tudo está confuso. A plateia invadiu o palco sem avisar; os sonoplastas não entenderam o que aconteceu, aumentaram o volume e os efeitos sonoros de acidente ganharam forma concreta, há metal retorcido por todo o palco; o pessoal da iluminação deixou um só spot aceso, em mim, evidente, mas o público e os outros atores perambulam à minha volta, querendo tomar-me o espaço. Não entendo o que dizem, meus sonoplastas não diminuem o volume, mas posso observar os semblantes distorcidos, desesperados, agora o efeito sonoro de um acidente de carro, mais ferro retorcido, agora uma canção fúnebre, cheiro de vela, há pessoas por todos os lados, cheiro de gente, melhor seria uma trilha de filme trash de zumbis, cheiro de morto: vagamos todos por um palco pequeno pra tanta gente, todo mundo quer brilhar, mas o centro é meu.

Um instante de silêncio, agora: uma criança grita de medo, de fome, de frio, mas foi por um instante, vibra de novo o caos sonoro e linguístico dos corredores do free-shop. Não sei onde está a criança, posso perceber o chorinho fino, parece que o pequenino agoniza, posso sentir-lhe o arquejar do peito, é bronquite, o ambiente fica mais úmido por causa de seu choro - quem não se transtorna com o choro de uma criança? Eu exijo, mando, suplico, imploro, Parem com o espetáculo, mas a minha voz é imperceptível, os sonoplastas não diminuíram o volume - Isto é apresentação ou é ensaio?, eu me pergunto. Súbito meus braços gesticulam como se eu fizesse oficina, as frases que eu grito são entoadas sempre do mesmo jeito, nem os meus passos são naturais - terei eu dados esses passos, que parecem todos ensaiados, meus olhos de desespero atrás da criança, onde está a criança?

Não pode ser - eu não quero que seja - mas tenho a impressão de que o choro da criança estava na sonoplastia - também ele era falso? Ao fundo, no canto do palco, sorrindo, Eu-estranho agora assumo o papel: criança dos outros não é problema meu. Cai o pano.                   

Um comentário :

Ju Marques disse...

Imediatamente lembrei de um trecho de A Insustentável leveza do ser". Meu livro não está aqui comigo. Mas, é algo como:
"...Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado...”

=)