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sábado, 10 de setembro de 2011

A paixão nacional pelo esporte e as coisas que as pessoas não se permitem

Todo mundo acabou de postar mensagens no facebook a respeito de basquete. Me perguntei: "por que as pessoas estão falando de basquete?". Eu achava que este era o país do futebol. Acabei entendendo por osmose: a seleção brasileira de basquete deve ter cometido algum grande feito, relacionado com algo que vai acontecer em (deixe-me verificar nos posts das pessoas), em 2012. Deve ser Olimpíada, que também não me interessa.

Na sequência, infiro que alguns jogadores brasileiros que jogam na NBA devem ter se negado a jogar na Seleção, e que algumas pessoas estão no clima "chupa!", vingativas, como se esses caras tivessem a obrigação de jogar na seleção. Não entendo: será que ninguém percebeu que jogar basquete - ou qualquer outro esporte - é um emprego como outro qualquer? Se pagasse mal, eu também não jogaria na Seleção. Mais: eu acho que jogar em qualquer seleção brasileira, do esporte que for, pra fazer o papel "sou brasileiro com muito orgulho e não desisto nunca" é, além de vexatório, uma forma de contribuir com uma falsa identidade nacional, que não beneficia a esmagadora maioria da torcida, mas exatamente as pessoas que pouco se importam com o suposto "valor da camisa verde e amarela". Amiguinhos, desculpem: jogar por nacionalismo, sem entrar a grana no bolso, é tão utópico quanto achar que grandes empresários contribuirão para a emancipação política e cultural da população. Não conheço os tais jogadores que se negaram a jogar, nem sei se foi exatamente isso que aconteceu, mas é o que eu queria que acontecesse: grandes jogadores de todos os esportes se negando a jogar, argumentando que, sem grana, não tem jogo. Afinal, é assim na realidade concreta. Por que é que as pessoas se permitem o devaneio de que alguém joga "pela camisa"?

Soa como o cúmulo da desinformação, da alienação e da futilidade essa história de se sentir representado no mundo por um brasileiro, que joga no campeonato que for - sempre tem um brasileiro em qualquer campeonato, mesmo que seja de um esporte elitista, que não tem nada a ver com nosso povo, como o hipismo ou o iatismo, ou que não tem nada a ver com nosso clima, como surfar na neve, tenha lá esse esporte o nome que tiver.

É pior: as pessoas gozam com o pau alheio, observando os atletas que "superam os próprios limites" - e tentam reproduzir isso, vide o culto ao corpo nas academias e a larga difusão dos esportes "radicais". É lamentável: nossas vidas cotidianas são vazias o suficiente para darmos uma de Indiana Jones nos fins de semana, saltando de grandes alturas, escalando montanhas e construções, correndo quilômetros intermináveis.

Não vão achar que odeio esporte: não o odeio, pelo contrário. Corro na esteira da academia, ando, estou a fim de voltar a jogar futebol como fazia no colegial, parei de fumar por causa de saúde, não bebo mais nada, praticamente não saio mais nos fins de semana; gosto de assistir a uma partida de futebol, ou basquete, ou vôlei; até me emociono com times que viram jogos, especialmente quando equipes de países pobres ganham das de países ricos: às vezes parece uma forma simbólica de fazer justiça.

Mas repudio, porque acho alienante, a identificação cega com um clube ou com um país; rejeito o culto cego à descoberta dos próprios limites, sem que as pessoas percebam que a humanidade tem poucos limites, mas isso não nos é permitido pensar: fomos à Lua, inventamos a penicilina, etc, mas não acabamos com a pobreza e a miséria. A crise assola o mundo, e fazemos rafting achando que o ser humano pode se superar.

Em outras palavras: as pessoas se permitem acreditar que um jogador veste a camisa da seleção com orgulho (o que pode acontecer, sim, claro), julgando que o atleta desconsidera os ganhos pessoais que terá (o que é de uma ingenuidade sem precedentes); se permitem achar "mercenários" aqueles que se recusam a jogar, porque provavelmente não vale a pena para eles (mas fariam o mesmo em seus empregos, ou alguém "veste a camisa da empresa" acreditando nisso?); se permitem acreditar que suas superações físicas exclusivamente pessoais acenam para a evolução da humanidade; finalmente, as pessoas têm a esperança de que por meio do esporte possam identificar-se umas com as outras, compondo todas elas, por meio da massa, um "Timão", ou "Mengo", ou "Brasil", ou qualquer conceito abstrato como esses - de modo que poderão, identificadas a esse ser abstrato, "deixar sua marca" no mundo, ganhando campeonatos, tendo sei lá quantas estrelas no peito.

As pessoas se permitem tudo isso - mas não se permitem imaginar um mundo diferente, fora da lógica do capital, desmercadorizado, com outras alternativas democráticas e descolonizado (nos termos do Boaventura de Sousa Santos, já explicados aqui), com uma educação de fato emancipatória (sustentável, com o controle consciente dos processos; universalizada, junto com o trabalho, partindo do pressuposto de que todos são iguais, tanto as pessoas, como os trabalhos a executar, de todas as ordens, e todas as experiências), nos termos de István Mészaros, cujo livro sobre educação acabei de devorar no avião.

Há de chegar o dia em que acreditaremos que o mundo pode ser diferente - e em que o esporte possa ser praticado para além da lógica do capital.             

Um comentário :

Rogério Viana disse...

Por hoje, fico com o feito da seleção. E olha que não tem nada a ver com vingar os "anti-nacionalistas" da NBA. Isso foi um tanto generalizante. Gozar com um pau coletivo, por algumas vezes, ainda que nessas "pelejas" alienantes, é tão, mas tão bom!