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quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Barata ousa sonhar

Primeiro, o vazio, a escuridão completa. Depois, sem saber bem como, Rudgero Barata havia vendido tudo que tinha: o Uno Mille 2002, o apartamento que comprara na planta, a casa no Morro do Piolho, os dois imóveis que herdara dos pais, as duas dúzias de ações de bancos que lhe haviam sobrado da febre das ações (em que, diga-se, de passagem, só se deu mal), móveis, os livros que usara para preparar aulas durante anos, as roupas. Instalou-se no hotel mais barato da Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro, carregado de malas em que levava apenas garrafas de uísque, todas as que guardara ao longo da vida "para abrir numa data comemorativa".

Datas para comemorar, nunca as houve. Barata nunca foi paraninfo de nenhuma turma, nunca deixou saudades nos alunos. Não era reconhecido na rua, e, quando o era, percebia os olhos constrangidos que apressavam-se em desviar-se dele e seguir caminho. A família fora pequena: a mãe, o pai, dois irmãos. Quando saiu de casa para estudar, Barata não fez falta, ao contrário: a tentativa de trazer para as mesas de almoço os debates da praça pública irritavam a todos, que queriam comer sossegados. Perdeu silenciosamente o pai, depois dolorosamente a mãe, os irmãos foram-se embora sem desejo de vê-lo: Barata não era bem quisto, só causava problemas. As garrafas começaram a acumular-se nesse período: não havia mais aniversários para celebrar, mas Barata gostava de uísque, não para beber todo dia, que não era disso, mas para beber com os outros: seu único luxo e sua única forma de convivência social. Sem vida pessoal ou familiar, acomodou-se à sombra dos diretores de escola, que o protegiam, porque a única instância desenvolta da vida de Barata, a partir de então, foi o currículo. Ali acumulara montanhas de cursos, palestras, simpósios, conferências, cursos a que assistira - e a escola precisava de um professor gabaritado em seus quadros.

Nunca se casou porque nunca encantou nenhuma mulher, também não teve paixões que inspirassem. Era voltado demais para si, egoísta, foi o que lhe disse a única namorada que teve, por menos de um ano - única experiência próxima de amor que experimentou em vida. Não comemorou um ano de namoro, nem casamento. E as garrafas acumulavam-se no bar.

Assim, de uma hora para outra, Barata decidiu que beberia tudo de uma vez, em um quarto de hotel - e, com sorte, num surto de insanidade, cometeria suicídio, esvaziado que estava da vida. Instalou-se no quarto e começou, dose por dose, depois em goles maiores, depois de garrafa em garrafa. Temeu suicidar-se atirando-se da janela (devia doer demais), então tomou um táxi, intentando morrer poeticamente afogado na Lagoa Rodrigo de Freitas, à moda de João Gostoso, mas não teve coragem, nem era gostoso. Caminhou à beira da Lagoa, não supôs ter cantado, dançado e bebido o suficiente. Tentou ligar para os irmãos, mas teve vergonha. Tentou ligar para a ex-namorada, mas teve vergonha. Voltando ao hotel foi atingido por violenta explosão na Praça Tiradentes que lhe tirou a vida.

Depois de uma noite com esses sonhos inquietantes, Rudgero Barata acordou cedo, sem ressaca, porque não bebia, sem companhia e cercado de livros.

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