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sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Jovens gênios, Velhos teimosos

Numa fase superior da sociedade comunista, quando tiver desaparecido a dominação subjugadora dos indivíduos à divisão do trabalho, e com ela a oposição entre trabalho intelectual e trabalho manual, quando o trabalho não for mais somente um meio de vida, mas tiver se tornado a primeira das necessidades vitais, quando, com o desenvolvimento dos indivíduos em todos os seus aspectos, suas forças produtivas tiverem se intensificado e todas as fontes da riqueza jorrarem com abundância, só então o horizonte limitado do direito burguês poderá ser inteiramente superado e a sociedade poderá escrever em suas bandeiras: "De cada um, segundo suas capacidades; a cada um, segundo suas necessidades".

Karl Marx,  Crítica do Programa de Gotha (1875)

Pra mim ainda é muito triste ouvir de jovens de dezoito anos as frases "o homem é naturalmente egoísta" ou "não dá pra mudar" o mundo" - sobretudo quando esses jovens pertencem às classes que mais teriam condições de mudar o mundo. Nesta semana, ouvi frases como essa vezes demais - e eu próprio mudei sensivelmente porque, em vez de me revoltar, de ser grosseiro, de partir para as ironias gratuitas, de usar, para humilhar, todo meu suposto e pretenso cabedal de professor, em vez de tudo isso, ouvi, debati, insisti, agi quase carinhosamente, acatei, e sugeri leituras. Que mais posso fazer? Disse a eles que uma das misérias deste tempo está no fato de as ideologias terem chegado tão longe a ponto de convencer os jovens de que é impossível mudar o mundo.

Meu argumento é quase sempre o mesmo: podemos sonhar em ir à Lua, podemos criar Ipods, Iphones, todos os "ais" que o suposto "jovem gênio" Steve Jobs criou (suas primeiras invenções datam dos 21 anos de idade) - mas não podemos sonhar com uma sociedade mais justa? Não podemos sonhar com um tempo em que o trabalho não seja "somente um meio de vida", mas "a primeira das necessidades vitais"? Eu acredito que podemos. Pena que Steve não se dedicou a isso.

Mas já eu pertenço à categoria dos "adultos" - tenho 35 anos, já não me encaixo mais na dos "jovens sonhadores": estou mais pra dos "adultos e velhinhos teimosos", aqueles superados, que não conseguem aceitar que "o mundo mudou".

Quando escreveu o fragmento acima, Marx tinha 57; hoje, Boaventura de Sousa Santos tem 71; Noam Chomsky tem 83; István Mészáros tem 81. Todos eles seguem crendo que é possível mudar o mundo e seguem trabalhando pra isso. Pois bem, aqui estou, nas fileiras dos velhinhos teimosos: outro mundo é possível.   

3 comentários :

Joao Mendes disse...

quando eu disse que mudaria muita coisa quando fosse presidente, você disse que não, pois bem, espero que esteja vivo quando isso acontecer. Sim ainda existem, em meio jovens pragmáticos e desiludidos, sonhadores.

Rogério Duarte disse...

João:

Na verdade, quero crer que você mudará muita coisa, mas acho mais difícil fazê-lo sendo presidente.

Não duvido de sua capacidade, nem da existência de sonhadores entre os jovens da sua geração: só acho que o "jovem rebelde", que me parece mais comum em gerações anteriores, está cada vez mais raro. Nunca nos esqueçamos de que isso pode ser miopia minha, tanto no que diz respeito ao passado quanto ao que diz respeito ao presente.

No mais, fico feliz pelos seus ideais.

Abraço!

Joao Mendes disse...

voce tem razao, é cada dia mais dificil achar alguem que nao seja complacente e, talvez por decorrencia disso, os que tem esse sentimento de revolta dentro de si, acabam se calando.